Narrativas

Gustavo Carneiro

Se há um plano em que o imperialismo domina, sem ter até ao momento quem se lhe aproxime, é o da comunicação de massas. Pese embora a existência de poderosos meios de informação que não lhe estão submetidos (e que procura censurar), são “ocidentais” as principais agências, as maiores cadeias noticiosas, os jornais, rádios e portais da Internet mais divulgados. E isso pesa, e muito, na percepção colectiva acerca do que se passa no mundo.

Se a abordagem dominante ao conflito que se trava no Leste da Europa constitui, a este respeito, um autêntico tratado, a questão do Médio Oriente não lhe fica atrás: faça Israel o que fizer (e desde há um ano que o que faz tem um nome: genocídio), os termos utilizados pela generalidade dos pivôs e comentadores são benevolentes. Tão céleres, há dois anos, a sacrificar no altar do pensamento único quem usasse qualquer outro termo que não “invasão”, ficam-se agora, no caso do Líbano, pela “incursão” – e, reproduzindo os comunicados do exército israelita, garantem que será “limitada”, “localizada” e “precisa”.

Já por aqui se referiu que não se está perante um “conflito”, mas uma ocupação, e que Israel é o agressor e não a vítima – o que é válido na Palestina como no Líbano. Mas não é isso que ouvimos ou lemos: aí estão novamente “o direito de Israel a defender-se”, a “luta contra o terrorismo”, a narrativa dos “escudos humanos”, a lengalenga da “única democracia do Médio Oriente”.

A única crítica aceite é a da “proporção”: estará Israel a “exagerar”? Avalie o leitor: em Gaza, em menos de um ano, há 41 mil mortos e 96 mil feridos confirmados e, ainda, 11 mil pessoas desaparecidas; no Líbano, só nas duas últimas semanas, mais de 1000 mortos, seis mil feridos e um milhão de pessoas (um quinto da população) forçadas a sair das suas casas. E há tanta desgraça que escapa à mera contabilidade…

Também ao contrário de outras situações, avaliadas sempre muito a preto e branco, abundam agora as “justificações” e os “contextos”, mesmo que falsos ou truncados: a “culpa”, dizem-nos, é do Hezbollah, como antes era do Hamas. Fazem assim por ignorar que um e outro surgiram na sequência das agressões israelitas nos respectivos territórios – o Hezbollah durante a invasão do Líbano, iniciada em 1982 (tinha havido outra, anos antes, e voltou a haver mais tarde) e o Hamas, promovido por Israel contra a OLP no começo da Intifada face à brutal ocupação israelita da Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental, consumada em 1967. Lembram-nos também, e a toda a hora, do carácter religioso destas duas forças, ao mesmo tempo que apagam as doutrinas do “povo escolhido”, da “terra prometida” e do “Grande Israel”, que constituem substrato teórico do sionismo.

Vale-nos a resistência e a solidariedade, que também ajudam a alterar as narrativas.

 



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