A cimeira da guerra

Luís Carapinha

Dois alvos se perfilam, a Rússia e a China

A cimeira de Washington dos 75 anos da NATO foi desenhada para constituir um grande espectáculo de unanimidade, ostentação de hegemonia e aclamação dos EUA na qualidade de umbigo do mundo. Toda uma encenação para vincar o papel da superpotência «excepcional», garante do «mundo livre» e da famigerada ordem mundial «baseada em regras», artifício através do qual o imperialismo pretende escorar um domínio em queda e suplantar definitivamente a carta da ONU, fundada em 1945 com a vitória sobre o nazi-fascismo.

Mais do que a desconcertante exibição da progressiva senilidade do anfitrião – no pano de fundo omnipresente da pugna no seio do sistema do poder dos EUA, culminando, já após o desfecho quase apoteótico da cimeira, na tentativa fracassada de assassinato de Trump –, ressalta a demencial apologia do militarismo, guerra e confrontação que perpassam toda a cimeira e a declaração final, assinada pelos 32 países. Nunca se pode subestimar a natureza agressiva da NATO. Porém, raras vezes foi tão crua a dissonância entre o virtual e o real, a contradição entre as aspirações e retórica prevalecente e a (in)capacidade do seu cumprimento e, sobretudo, o choque explosivo de uma agenda anacrónica e irracional com as tendências de um mundo em reconfiguração e mudança, processo em si inseparável do quadro de aprofundamento da crise do capitalismo e declínio gradual do poder dos EUA (e G7).

Numa grelha de ambição mundial que há muito supera a região euro-atlântica, nem uma palavra é dita sobre o genocídio em Gaza. No essencial, em tempos e graus distintos, dois alvos se perfilam: Rússia e China.

«A Rússia permanece a ameaça mais significativa e directa à segurança dos Aliados», lê-se no parágrafo da declaração que abre a catilinária anti-russa e o rol de medidas inscritas na escalada da tragédia em curso na Ucrânia. Contando com uma UE basicamente subserviente, os EUA e a NATO insistem no crescente envolvimento e prolongamento de uma guerra, em cuja deflagração figuram como responsáveis maiores (o atentado, em Maio, que quase custou a vida de Fico, PM da Eslováquia, mostra em que incorre quem se atreva a discordar). Não desistem da estratégia fracassada de procurar isolar e enfraquecer a Rússia, mesmo empurrando a Humanidade para o limiar de um conflito frontal entre potências nucleares. Do sacrifício e destruição da Ucrânia ninguém fala. O envolvimento maior na guerra e a inscrição da irreversibilidade da adesão da Ucrânia à NATO, reeditando a promessa de adesão sem data da cimeira de 2008, representa uma perigosa provocação que procura afastar a saída negociada que se impõe.

A NATO sobe mais um degrau na fixação da China como adversário central, na linha da doutrina dos EUA que a define como ameaça existencial. A declaração repete o chavão de que a China desafia «os nossos interesses, segurança e valores» e pretende «reconfigurar e subverter a ordem internacional baseada em regras», e passa a acusá-la de ser o «facilitador decisivo» da guerra na Ucrânia! A verdade é que apesar da consonância com os aliados da Ásia-Pacífico, permanecem incertas as perspectivas e modalidades de uma NATO asiática procurada pela Casa Branca.

À margem da cimeira, coincidindo com a sua inauguração, ficou o assombroso alarme da responsável das Finanças dos EUA, J. Yellen, confessando no Congresso que a desdolarização é agora o seu maior temor...

 

 



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