Para além da teia de manipulação...

Pedro Guerreiro

A História não acabou

Para compreender o incerto sentido da instável evolução da situação internacional e as principais tendências que a marcam e determinam – incluindo os perigos e as potencialidades que estas comportam – é necessário ir para além da teia de manipulação e desinformação em que nos querem enredar e que procura impor como único o pensamento da classe dominante – do capitalismo e do imperialismo –, contando para tal com os zelosos préstimos da direita, nas suas diferentes variantes, e de uma dita «social democracia», nas suas velhas e novas expressões.

Daí procurarem ocultar e dissimular o carácter estrutural da crise do capitalismo e o declínio relativo dos EUA e das outras potências capitalistas reunidas no G7, nomeadamente brandindo com ditas «ameaças» que, na realidade, só o são para a continuação da imposição do domínio hegemónico do imperialismo. Domínio hegemónico exercido a partir da proclamação da denominada «ordem internacional baseada em regras», em confronto com os princípios da Carta da ONU e do direito internacional, estabelecidos após a vitória sobre o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial.

O que assusta as classes dominantes dos EUA e da UE é que, ao contrário do que anunciaram, a História não «acabou», como evidenciam as lutas que os povos continuam a travar em prol dos seus direitos e soberania ou o processo de rearrumação de forças que continua a ter lugar no plano internacional, em que a China assume um particular e relevante papel – lutas e processo que, para além de outros aspectos, objectivamente confrontam os intentos do imperialismo.

Como tem sido sublinhado, trata-se de um processo de rearrumação de forças que – tendo igualmente expressão no desenvolvimento de relações, articulações e cooperações de âmbito bilateral e multilateral (como o BRICS+ ou a Organização de Cooperação de Xangai) entre países com percursos e realidades muito diferenciadas – representa uma tendência positiva na evolução da situação internacional, que o imperialismo procura contrariar por todos os meios.

Daí o incremento da acção dos EUA, da UE, do G7, da NATO e seus seguidores contra aqueles que não se submetam e que afirmem a sua soberania, direito ao desenvolvimento, independência nas suas relações internacionais. Para além da insana escalada armamentista e de guerra, vejam-se no plano económico as constantes pressões e chantagens ou a arbitrária imposição de bloqueios e sanções por parte dos EUA (e seus seguidores), a partir do domínio do sistema financeiro internacional (do FMI, do BM, do sistema de pagamentos e transferências bancárias SWIFT ou do dólar) e tirando partido de relações neocoloniais e de situações de dependência e de vulnerabilidade impostas a diversos países.

No entanto, são cada vez mais aqueles – nomeadamente em diversos países africanos – que afirmam a necessidade de um mundo livre de medidas coercivas, da chantagem da dívida, do saque de recursos, de relações desiguais e neocoloniais, e da criação de uma nova ordem internacional mais equitativa, baseada na igualdade soberana dos Estados, no direito ao desenvolvimento, na cooperação mutuamente vantajosa, entre outros importantes princípios que devem reger as relações internacionais.

A História não acabou. Ela é feita pelos povos.

 



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