Explicações

Vasco Cardoso

Por entre uma programação televisiva dominada pelo comentário político mais interesseiro, tem havido nestas semanas algum espaço para um conjunto de debates e entrevistas com os diferentes candidatos ao Parlamento Europeu. Em alguns destes programas tem participado também o candidato da CDU, dando lugar a um momento cada vez mais raro: a presença de comunistas nas televisões.

É verdade que são presenças a espaço, uma gota de água numa paisagem mediática cada vez mais alinhada com o poder dominante, pelos porta-vozes dos interesses do capital, pelos propagandistas acríticos, quando não empenhados, da UE e da NATO. Mas o simples facto de aparecer uma voz dissonante do coro geral, que não se submete à agenda de Washington, de Berlim ou de Bruxelas, que fala de salários e de uma mais justa distribuição da riqueza, que defende a soberania e a democracia, que quer ver Portugal a produzir e questiona o euro, que não se deixa enrolar pelos que querem pintar o capitalismo de verde, nem arrastar para o caminho da guerra quando se exige a paz, tudo isso é insuportável. É um pesadelo para os que se julgam donos disto tudo.

Claro está que, em tempo de eleições, não conseguem apagar por completo a presença da CDU. E o remédio para isso é ter uma espécie de pelotão de fuzilamento que, com honrosas excepções, procura arrasar após os debates as principais ideias adiantadas pela CDU e promover outros. Uma das técnicas usadas é dizer que «a CDU não conseguiu explicar».

Eles, os comentadores, esses sim, explicam. Explicam todos os dias, e várias vezes ao dia, porque é que os salários não podem crescer, porque é que os bancos têm que ter lucros colossais enquanto se nega o direito à habitação, porque é que temos que privatizar a TAP (e tudo o resto), porque é que se devem baixar os impostos ao capital, porque é que Portugal tem de abdicar da sua soberania, porque é que nos temos de preparar para a guerra e ir morrer onde a NATO disser. E depois de tudo explicado por quem sabe explicar afastar os telespectadores do «perigo» que é, ouvirem as explicações da CDU.

Na verdade, este empenho tão vasto, com recursos tão poderosos, para diminuir e atacar as posições da CDU revelam o receio que têm de que muitos mais possam perceber que é a CDU que melhor defende e representa os seus interesses. É isso que temem e a explicação é essa.



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