Naqbas
Cabe aos povos fazer frente aos senhores da guerra
15 de Maio assinala o Dia da Naqba, a Catástrofe do povo palestiniano que acompanhou a criação do Estado de Israel em 1948. Há sete meses que Israel conduz uma nova Naqba como, sem pingo de vergonha, lhe chamou o próprio ministro israelita Avi Dichter (Haaretz, 12.11.23). Uma barbárie que não é apenas obra de Israel. Sete meses de permanente apoio militar, económico e político dos Estados Unidos da América configuram um genocídio conjunto israelo-americano, com a cumplicidade mais ou menos envergonhada de grandes potências europeias.
A barbárie da nova Naqba traz lições importantes. Muitos estão hoje chocados ao descobrir que a fachada «liberal-democrática» do «Ocidente» esconde a cara de sempre do colonialismo e do imperialismo: brutal, assassina, predadora, mentirosa, disposta a tudo para impor a sua hegemonia. A revolta que essa descoberta provoca aumenta a vaga de solidariedade com o povo palestiniano. Uma solidariedade que está a criar reais dificuldades aos fãs incondicionais do fascismo sionista. E que torna cada vez mais difícil manter o apoio a Israel que – como se viu durante meses – é a verdadeira política das classes dominantes euro-americanas. Quem pode hoje ainda acreditar que os patronos da chacina de Gaza promoveram as suas inúmeras guerras das últimas décadas por razões «humanitárias» ou em prol da «autodeterminação dos povos»? Foram, tal como hoje em Gaza, agressões para impor a sua dominação.
Os EUA ajudaram a criar o Tribunal Penal Internacional para perseguir quem lhes fazia frente. Mas sempre se puseram fora, e forçaram numerosos países a assinar declarações em como nunca levariam dirigentes ou militares dos EUA perante esse tribunal. Hoje, senadores dos EUA assinam cartas públicas de ameaça explícita aos juízes do TPI caso avancem contra dirigentes israelitas (politico.com, 6.5.24). É o «mundo baseado em regras», que só tem uma regra: os EUA mandam e o mundo obedece. Enquanto aceitar obedecer.
Israel está a escalar o terror, face ao seu isolamento, à sua incapacidade de vergar a resistência palestiniana e de obter uma vitória no terreno. A resistência heróica do povo da Palestina que, após décadas de promessas traídas e de ocupação e perante o horror que vive há sete meses, não baixou os braços, é uma lição para todos os povos. É dessa e outras resistências que surgirá a mudança. Mas o preço é terrível e urge pôr imediato fim ao genocídio.
Como pano de fundo, intensifica-se a crise mundial do capitalismo. A revista Economist (9.5.24) titula que «A ordem internacional liberal está a desfazer-se lentamente. O seu colapso pode ser súbito e irreversível». O desespero da derrota que se antevê pode conduzir os mais extremistas à aventura. O influente Senador dos EUA Lindsey Graham – falcão de todas as guerras – dá luz verde a Israel para usar armas nucleares em Gaza (presstv.ir, 13.5.24), tal como por duas vezes já foi sugerido por um ministro israelita (middleeastmonitor.com, 24.1.24). É real o perigo de que os autores das Naqbas do povo palestiniano nos possam conduzir a uma Naqba global, na tentativa de manter a sua hegemonia mundial. É urgente mudar de rumo, antes que seja tarde. Cabe aos povos fazer frente aos senhores da guerra.