Catástrofes, falácias e injustiças

Anabela Fino

«O genocídio pressupõe a vontade de eliminar um povo. Seria muito injusto dizer que Israel pretende eliminar o povo palestiniano (...) existe uma catástrofe humanitária que exige condenação (...) Portugal entende que o Estado israelita enfrenta uma ameaça existencial.» As palavras do ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, em entrevista ao El País, são paradigmáticas da hipocrisia sem vergonha a que se chegou.

Sete meses de massacre de palestinianos e de destruição de todo o tipo de estruturas existentes em Gaza, sem distinção de escolas, hospitais, habitações ou campos de refugiados; sete meses de bloqueio de todo o tipo de bens essenciais à vida, dos alimentos à água, dos combustíveis aos medicamentos; do oxigénio ao soro; do antibiótico ao analgésico; sete meses de bombardeamentos indiscriminados de grávidas, recém-nascidos, crianças, mulheres, velhos, doentes; sete meses de «direito à defesa» traduzido em pelo menos 35 mil mortos, qualquer coisa como mais de 25 (vinte e cinco!) vezes o número de vítimas israelitas, resposta que nem o mais parcial observador poderá classificar de «proporcional»; sete meses depois de tudo isto, e dando de barato as mais de sete décadas de ocupação ilegal da Palestina e de desrespeito de todas as resoluções da ONU sobre a questão, dizer ser «injusto» acusar Israel de genocídio é, no mínimo, uma falácia.

Num tempo em que a repressão policial volta às universidades e jovens são impedidos de pintar um mural de apoio à Palestina em Portugal, em degradante mimetismo das práticas norte-americanas, só falta mesmo a Assembleia da República imitar o Congresso dos EUA e aprovar legislação considerando anti-semita qualquer crítica a Israel.

Em que parte do mundo, em que democracia – diz-se que Israel é a «única democracia» do Médio Oriente – ou em que sistema, assassinar populações indefesas e matar jornalistas é considerado direito à defesa?

O peculiar sentido de «justiça» do ministro Rangel, para encontrar paralelo, tem de recuar pelo menos até à Idade Média. É caso para desconfiar que se trata de uma catástrofe existencial.

 



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