Crimes com nome
Fosse um programa televisivo e esta crónica teria um círculo vermelho no canto superior direito do ecrã. Mas não é, o que não invalida que se avise os leitores para a violência do que vão ler. Há momentos em que não é possível pintar a realidade em tons suaves…
Por estes dias, como desde há meses, ocorre uma chacina na Faixa de Gaza – cometida por Israel com a cumplicidade dos EUA e de potências da NATO e da União Europeia: 35 mil mortos, dos quais mais de 12 mil crianças; 78 mil feridos e 11 mil desaparecidos; mais de 1,7 milhões de deslocados (numa população de 2,3 milhões); 155 mil grávidas ou mães recentes a lutar pela sobrevivência; milhares de menores com traumas permanentes.
Mas por trás de cada um destes números há (ou havia) vidas concretas. Os relatos são retirados de diversas fontes, nacionais e internacionais, e arrepiam.
Dalia, uma mãe de Gaza, conta que as crianças «andam assustadas, irritadas e não conseguem parar de chorar». Um pai, Waseem, garante que elas «já viram tudo, as bombas, as mortes, os corpos. (…) O meu filho já consegue adivinhar o tipo de explosivo que caiu – consegue ouvir a diferença». Já Ziiad procurou o filho num monte de cadáveres: «Reconheci o meu filho apenas pelas suas calças. Queria enterrá-lo imediatamente, por isso peguei no seu corpo ao colo e tirei-o de lá.»
O médico James Smith, de Londres, viu num hospital de Gaza o que nunca tinha visto: crianças amputadas e queimadas, pessoas a morrer no chão sem nenhum familiar por perto e outras a sangrar até à morte. A situação é clara para ele: «se alguém tem como alvo os profissionais, o sistema e as instalações de saúde, está a levar a cabo uma forma de guerra psicológica em que diz que ninguém está seguro em lugar algum.»
A obstetra britânica Deborah Harrington, que trabalhou no sobrelotado hospital de Al-Aqsa, desabafa que a violência «não deveria recair sobre os civis e nem sobre as pessoas que tentam ajudá-los». Já a anestesista Konstantina Ilia Karydi recorda as milhares de famílias palestinianas abrigadas em tendas junto ao hospital europeu de Gaza: «Não se pode imaginar as condições terríveis em que vivem.»
Peritos da ONU estão horrorizados com as valas comuns descobertas junto aos hospitais Al Nasser e Al-Shifa, após a retirada das forças israelitas. Ali foram descobertos quase 400 corpos, «incluindo de mulheres e crianças, muitos dos quais parecem ter sinais de tortura e execuções sumárias e possíveis casos de pessoas enterradas vivas».
Apesar do quadro horrendo, e conhecido, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, não vê motivo para se falar em genocídio e considera «muito injusto» afirmar-se que Israel pretende eliminar o povo palestiniano. A realidade desmente-o e são cada vez mais os que constatam o óbvio: sim, é genocídio.