Quem diz o quê sobre creches?

Margarida Botelho

Se há dez anos nos dis­sessem que em 2024 todos os par­tidos te­riam nos seus pro­gramas elei­to­rais pro­postas sobre cre­ches talvez não acre­di­tás­semos. Du­rante muitos anos, es­ti­veram o PCP e a CDU so­zi­nhos a de­fender a gra­tui­ti­dade das cre­ches e o di­reito de todas as cri­anças a uma rede pú­blica.

Essa de­ter­mi­nação foi de­ci­siva para que o ca­minho se co­me­çasse a tri­lhar. É bom não es­quecer que foi apenas em 2020 que as pri­meiras cri­anças ti­veram acesso a creche gra­tuita, e que no pre­sente ano lec­tivo já estão abran­gidas cerca de 80 mil – muito abaixo das ne­ces­si­dades, mas uma evo­lução as­si­na­lável.

De­fende o PCP no seu pro­grama elei­toral «um novo pa­ra­digma para as cre­ches: uma rede pú­blica, uni­versal, gra­tuita, in­te­grada no sis­tema edu­ca­tivo, re­co­nhe­cendo o di­reito à edu­cação desde o nas­ci­mento. Com quatro ob­jec­tivos fun­da­men­tais: as­se­gurar uma res­posta edu­ca­tiva de qua­li­dade; as­sumir a gra­tui­ti­dade; ga­rantir vagas a todas as cri­anças dos 0 aos 3 anos; con­tri­buir para a in­versão do dé­fice de­mo­grá­fico. Propõe-se que a rede pú­blica as­suma o ob­jec­tivo de dis­po­ni­bi­li­zação de 100 mil vagas até 2028 e de 148 mil até 2032».

Pro­mete o PS: «re­forçar a ca­pa­ci­dade ins­ta­lada da rede de res­posta de creche em todo o país.» Res­ponde a AD: «au­mentar a oferta exis­tente no Es­tado, seja con­tra­tu­a­li­zando com o sector so­cial, par­ti­cular e co­o­pe­ra­tivo.» IL e Chega pro­põem um cheque-creche. A IL con­segue a proeza de propor cre­ches para bebés com menos de 3 meses, dos mai­ores re­tro­cessos que se po­de­riam ima­ginar nos di­reitos das cri­anças.

Até pode pa­recer que di­zemos todos o mesmo. Mas dá para per­ceber a di­fe­rença. Quem tem uma con­cepção que co­loca cada cri­ança no centro da res­posta a dar, quem as­sume ob­jec­tivos e ca­mi­nhos. Quem não se com­pro­mete com nada a não ser com o mo­delo ac­tual, de pagar a IPSS e pri­vados a frequência das cre­ches para me­tade dos bebés. Os que anun­ciam um cheque, inútil para me­tade das fa­mí­lias porque há duas cri­anças para cada vaga exis­tente no país, e daí lavam as suas mãos. Os que vêem na creche um de­pó­sito e nas cri­anças um obs­tá­culo à ex­plo­ração dos pais. Também é nesta di­fe­rença se vota no pró­ximo dia 10.

 



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