A solução e os engodos
Tem-se falado muito da solução dos dois Estados, e consequente criação do Estado da Palestina (aquele que não existe), como forma de resolver o grave problema que afecta o Médio Oriente e, particularmente, o povo palestiniano.
Aos que há décadas se batem por esta solução, por a considerarem essencial para corrigir uma injustiça histórica e assegurar uma paz duradoura, somaram-se agora outros, que a ela aderiram mais recentemente, perante o genocídio que à vista de todos está a ser cometido por Israel na Faixa de Gaza. Para este despertar de consciências muito têm contribuído as reportagens enviadas daquele martirizado território por jornalistas palestinianos, que pagam caro tal ousadia (mais de 130 foram assassinados, em quatro meses, pelas forças israelitas), e as grandiosas manifestações realizadas em dezenas de países do mundo, Portugal incluído.
Mas não nos deixemos enganar: se a maioria dos que recentemente passaram a defender esta solução o faz de modo genuíno, há quem a ela se refira apenas para confundir ou para procurar limpar a face por uma longa cumplicidade com os crimes que (há décadas e não só há meses) Israel comete contra os palestinianos.
Não ouvimos Joe Biden afirmar o seu apego à solução dos dois Estados, ao mesmo tempo que os EUA continuam a armar Israel, a bloquear no Conselho de Segurança sucessivas resoluções visando a imposição de um cessar-fogo imediato e permanente e a dar cobertura às ilegalidades cometidas nos territórios ocupados? Não têm alguns governantes de países europeus e responsáveis da UE vindo a falar grosso contra Israel, ao mesmo tempo que continuam a adiar o prometido reconhecimento do Estado da Palestina e a fazê-lo depender de inaceitáveis condições?
Nem todos falam do mesmo quando se referem aos dois Estados, tal como para alguns o Estado da Palestina não tem de ser bem um Estado… As narrativas são variadas e todas as nuances contam.
Uma resolução aprovada na Assembleia da República por PS, PSD, IL, PAN e Livre, é disto um bom exemplo: não fala do reconhecimento do Estado da Palestina, mas do desenvolvimento de «esforços diplomáticos» nesse sentido, em articulação com «parceiros próximos» da UE; não assume as fronteiras consagradas no direito internacional, mas umas que seriam «mutuamente aceites»; limita-se a exigir a proibição de novos colonatos e nada diz sobre os existentes.
Mas não há nada para inventar. Os termos da solução dos dois Estados é clara e está consagrada: a criação do Estado da Palestina nas fronteiras anteriores a Junho de 1967 (Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental, reconhecida como capital), garantindo o direito ao regresso dos refugiados. Sem colonatos, checkpoints, muros ou cercas. Um Estado, portanto. Soberano, independente e viável.