Evidentemente
Ainda os ecos do 5.º Congresso dos Jornalistas não se tinham extinguido e já a máquina mediática corporativa triturava sem piedade veleidades de profissionalismo e preocupações éticas trazidas à tona na magna assembleia da classe.
Nada de novo, reconheça-se. No século passado, o dramaturgo e jornalista austríaco Karl Kraus dizia, nas suas verrinosas observações, que «os jornais têm praticamente a mesma relação com a vida que as cartomantes têm com a metafísica». O mínimo que se pode aferir, face ao que é dado assistir, é que o que está a dar é a cartomância.
Num quadro em que o chamado quarto poder, estatuto atribuído à imprensa no tempo em que os animais falavam, já nem se dá ao trabalho de disfarçar a submissão ao poder económico que a todos domina, rotula-se de informação o reality show dos comentadores que depois de bem mastigar regurgitam opinião em quotidianas sessões em que se comprazem em ser a voz do dono.
São os sucessores dos protagonistas da «Operação Mockingbird», acção organizada pela CIA nos finais dos anos setenta envolvendo dezenas de órgãos de comunicação e mais de 400 jornalistas, a quem a Agência pagava para veicularem as posições dos EUA. Na folha de pagamentos, como revelou a investigação feita pelo jornalista norte-americano Carl Bernstein e a própria CIA confirmou, constavam nomes sonantes e prestigiados como o Washington Post, a Newsweek, as cadeias de televisão ABC e NBC e as agências de notícias Associated Press, United Press International e Reuters. Segundo fontes citadas na investigação, «era mais barato pagar a um jornalista do que a uma prostituta» e «não havia limite de dinheiro para gastar, não havia limites para as actividades a realizar na guerra fria secreta».
Convém ter presente que não se trata de uma coisa do passado: Robert F. Kennedy Júnior, candidato «independente» à presidência dos EUA, garantiu em entrevista recente com Lex Fridman que o programa continua activo e classificou a CIA como a «maior financiadora do jornalismo em todo o mundo».
A par dos contratados haverá outros, que correm por gosto, convencidos das virtudes da democracia liberal, essa invenção do capital para legitimar novas formas de exploração e domínio.
De tão habituados a olhar para o umbigo, alguns nem se darão conta de que são meros peões no jogo de espelhos que transforma opinião publicada em opinião pública. Um jogo viciado que potencia o eclodir dos ovos de serpente que o capitalismo lhes coloca no seio. Por cá, em vésperas de eleições, é vê-los a ocupar o lugar de protagonistas e a transformar o que devia ser espaço de esclarecimento e debate de ideias numa feira de vaidades onde os dirigentes políticos são «avaliados» como gado em feira. Com toda a isenção, evidentemente.