Cumplicidade

Cristina Cardoso

Israel conta com a cumplicidade dos EUA

Não será demais afirmar que vivemos momentos sombrios e de horror na Palestina, em consequência da agressão de Israel, apoiada pelos EUA, NATO e UE. Como afirmar que mais uma criança, uma mulher, um idoso ou simplesmente um civil foi morto num bombardeamento em Gaza ou assassinado noutros territórios ocupados pelas forças sionistas – não será demais fazê-lo perante o sofrimento atroz que está ser causado ao povo palestiniano e perante a sua demonstração de heroicidade e resistência.

No fim-de-semana em que se assinalou os cem dias do inicio desta agressão ao povo palestiniano repetiram-se e multiplicaram-se as manifestações por todo o mundo, de solidariedade com a Palestina. Assim foi também em Lisboa, no passado domingo, em que milhares de pessoas percorreram as avenidas entre as embaixadas dos EUA e de Israel, fazendo ecoar a exigência do cessar-fogo imediato e permanente, do reconhecimento dos direitos nacionais do povo palestiniano e da paz no Médio Oriente – um eco que tentaram «abafar» em alguma imprensa nacional.

No entanto e de forma inaceitável, Israel continua a sua brutal agressão. Multiplicam-se, a cada minuto que passa, as vítimas, a destruição, a fome em Gaza e a repressão na Cisjordânia. Netanyahu fez questão de afirmar, para assinalar os 100 dias de guerra, que «ninguém nos vai parar, nem Haia, nem o eixo do mal, nem ninguém», aludindo à importante iniciativa da África do Sul de acusação de Israel de genocídio da população palestiniana em Gaza no Tribunal Internacional de Justiça, já apoiada por mais de 80 países e reafirmando a intenção de Israel de prolongar o horrível massacre.

Israel conta abertamente com a cumplicidade da administração norte-americana. A hipócrita declaração de Biden sobre os 100 dias de ataques israelitas ao povo palestiniano passa um pano sobre todas as atrocidades cometidas por Israel, aludindo apenas aos reféns israelitas e esquecendo as mais de 100 mil vítimas palestinianas, assassinadas, feridas ou desaparecidas, na sua esmagadora maioria crianças e mulheres. O mesmo fez Anthony Bliken, Secretário de Estado dos EUA, que assinalou a data afirmando que os EUA não descansarão enquanto todos os reféns não forem libertados, continuando a dar luz verde à política genocida de Israel e aos seus hediondos crimes.

O empenho na guerra por parte do imperialismo toma proporções que arriscam levar o mundo para o abismo. Estes últimos dias assistimos aos ataques militares dos EUA e do Reino Unido contra o Iémen. São acontecimentos que não estão desligados da chacina que Israel está a levar a cabo contra o povo palestiniano, tendo as forças iemenitas bloqueado a entrada no Golfo de Aden a navios que tivessem por destino Israel, exigindo um cessar-fogo em Gaza e fim do seu bloqueio.

Os ataques anglo-americanos ao Iémen, país que sofreu quase uma década de guerra, onde, de acordo com os dados da ONU, já morreram centenas de milhares de pessoas, constituem mais uma violação do direito internacional e não resolverão a questão evocada. Pelo contrário, agravam e aumentam o perigo real de uma guerra generalizada no Médio Oriente, com consequências dramáticas para a Humanidade.




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