Há um voto que faz a diferença

Vasco Cardoso

Indiferente à escalada nos preços da habitação, o Governo PS deu o seu aval ao maior aumento das rendas dos últimos 30 anos. No arranque de 2024, os preços subirão 7%, numa decisão que foi, como várias vezes fomos denunciando, acompanhada por PSD, Chega e IL, que votaram contra a proposta do PCP que limitava esses aumentos aos 0,43% aplicados em 2022.

Dir-se-á que as actualizações anuais dos valores das rendas previstas na Lei nem sequer são o principal factor para o brutal agravamento dos custos com a habitação dos últimos anos. A completa liberalização do mercado de arrendamento que foi imposta durante o Pacto de Agressão das troicas, que rebentou com a relativa estabilidade dos contratos (tornando a possibilidade de despejo em regra), mudou as regras do jogo e deu ainda mais poder aos grandes proprietários e aos fundos imobiliários. Os aumentos que agora virão em 2024, e que poderiam ter sido evitados, somar-se-ão sempre aos lucros do capital e serão simultaneamente subtraídos, na sua larga maioria, aos rendimentos do trabalho.

Aumentos que a partir de Janeiro se alargarão a outros bens e serviços, com destaque para os alimentos (com o fim do IVA Zero), a electricidade (incluindo para as tarifas reguladas), os transportes (sobretudo nos bilhetes individuais) ou as telecomunicações (em que três operadoras cartelizam preços). Na verdade, mesmo num quadro em que a inflacção tem vindo a desacelerar, o aumento do custo de vida continua na ordem do dia e a corroer poder de compra de forma visível, pelo menos desde o segundo semestre de 2021.

É por tudo isto que o ano de 2024 que se aproxima transportará consigo todas as reivindicações que levaram este ano milhares de pessoas às ruas em luta por melhores salários e pensões, pelo direito à habitação (exigindo também a descida do valor das prestações aos bancos) em defesa dos serviços públicos, com destaque para o SNS. Reivindicações que encontrarão nas próximas eleições legislativas uma oportunidade para se expressarem de forma inequívoca e consequente. E no confronto entre os lucros escandalosos dos grupos económicos e a legítima aspiração a uma vida melhor, há um voto que faz a diferença: CDU. Agarremos essa oportunidade!

 



Mais artigos de: Opinião

Boas entradas

Há um ano, nestas mesmas páginas partilhámos os cansaços desta altura do ano, e os cansaços das injustiças que vemos e vivemos. Falámos da coragem para lutar pela vida a que temos direito, do desafio de fazermos dos nossos sonhos força para agir. Passado um ano, somámos forças e cansaços,...

Cabotagem

No actual mar revolto e de águas turvas poucos arriscam grandes prognósticos e a navegação em águas profundas. Não o fazem, em especial, os que se continuam a ver como donos do mundo e veladores da ordem internacional, mesmo sabendo que a quebra da hegemonia é um processo irreversível. O preceito aplica-se, antes de...

O truque, o jantar e os votos

Parece que voltámos a 2022. À excepção do Secretário-Geral – antes António Costa, agora Pedro Nuno Santos –, parece que para o PS nada mudou. Pelo menos ao nível da argumentação, que continua a mesma que na altura tanto contribuiu para que lograsse atingir a desejada maioria absoluta: assegura que é a única garantia de...

Quanto melhor, pior

«Juntos temos conseguido mais e melhor emprego; diminuímos a pobreza e reduzimos as desigualdades; recuperámos a tranquilidade no dia-a-dia das famílias; (...) juntos ultrapassámos dificuldades e juntos construímos um país melhor», palavras de António Costa na mensagem de Natal, que desta vez foi também a de despedida....

Um biombo chamado «os políticos»

São incontáveis as vezes que a comunicação social, e não só, utilizam a expressão «os políticos» para tentar esconder a realidade de estarem a falar de alguns políticos, normalmente dos políticos que apoiam, e por isso não os quererem destacar negativamente. Recentemente, sobre a apresentação de um meritório estudo...