As duas caras de Jano Biden

António Santos

Mesmo que não ganhe as eleições presidenciais do próximo ano, por estar preso ou judicialmente impedido de se candidatar, Trump já venceu. A natureza conhece um fungo assim: chama-se Ophiocordyceps unilateralis e ataca as formigas das florestas tropicais. O fungo toma conta do cérebro do hospedeiro e, enquanto o mata, fá-lo caminhar para locais mais altos, onde a reprodução do parasita é mais fácil. Insidiosamente, a política interna preconizada pelo mais que provável candidato republicano instalou-se como um parasita na moribunda administração Biden.

A distância não podia parecer maior: esta semana, a Casa Branca acusou Trump de «papaguear Hitler» por este ter afirmado que «os imigrantes estão a envenenar o sangue da nação» prometendo «a maior operação de deportação da história». Contudo, longe das câmaras, o unilateralis faz o seu caminho político. Senadores democratas e republicanos têm alcançado grandes consensos em torno do imperialismo e da imigração: em troca da militarização da fronteira com o México, do fim do estatuto de asilo humanitário, da agilização das deportações e da reintrodução de leis anti-imigração da administração Trump, os republicanos aprovam os maiores pacotes financeiros de sempre, que permitem a continuação da guerra na Ucrânia, do genocídio na Palestina e da ameaça contra a China, o Irão e a Coreia.

No Decreto de Autorização de Defesa Nacional, aprovado na semana passada, democratas e republicanos prometem 883 mil milhões de dólares para «dizer à China, à Rússia e a outros que não aceitaremos um mundo em que a América não tem a melhor força de combate». Em troca, Biden oferece-se para construir o muro de Trump, admite que o sistema de imigração está «em ruptura» e ressuscita o famoso «título 42» para facilitar deportações em massa. Quem, na realidade, trepa às altíssimas copas da escalada belicista, do fascismo do racismo? A formiga, ou parasita? Os dois.

No que à política interna diz respeito, a principal diferença entre Biden e Trump é que Biden tem duas caras, uma para a retórica e outra para a acção. Como o deus Jano, Biden tem uma cara com que apela à «moderação» da entidade sionista e outra com que lhe fornece as bombas e o apoio político para continuar o massacre. Com uma cara, Jano Biden condena o racismo de Trump e, com a outra, implementa-o. O fungo do fascismo apoderou-se do cérebro da classe dominante dos EUA – contaminou a sociedade. A formiga infectada trepará à mais alta árvore, com Trump ou com Biden. A isto se reduz a democracia capitalista: uma escolha entre o original e a sua cópia, entre a formiga moribunda e o fungo que a controla.

 

 



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