A vida e a bolha
Temos pela frente longos meses de campanha eleitoral: mais de três até às legislativas de Março, mais outros três até às eleições para o Parlamento Europeu, em Junho. Mas, pela amostra recente, vão ser seis meses em que a expressão mediática do debate político vai passar ao lado dos problemas do País e da vida de cada um.
Este é um problema crónico da generalidade das redacções, em particular das editorias de política: parece que, lá, todos se esqueceram que as coligações, os acordos, as manobras de bastidores e os arranjos institucionais não interessam nada se tudo isso não significar uma vida melhor, uma sociedade mais justa e desenvolvida.
Ou, de outra forma, de que interessa aos 1,6 milhões de utentes sem médico de família se o PSD vai coligado com o CDS se isso não lhes dá perspectiva de ter consulta sem passar a madrugada ao relento à porta do centro de saúde? Para que serve a disponibilidade do PAN para apoiar um governo de uns ou de outros aos mais de 2 milhões que vivem o aperto da prestação da casa, se isso não vai contribuir para pôr a banca a suportar os aumentos das taxas de juro? Ou que adianta para a vida dos 3 milhões de trabalhadores que ganham até mil euros saber se quem ganha o PS é Pedro Nuno ou José Luís se ambos assumem a herança do PS, o mesmo que chumbou a proposta do PCP para colocar o salário mínimo nesse patamar já no próximo ano?
Mas é sobre estas e outras matérias, decerto com justificado interesse jornalístico, que se têm ocupado as coberturas mediáticas da política nacional nestes tempos já de campanha eleitoral, um pouco por todos os órgãos de comunicação social. E é certo que não é indiferente saber quem vai formar governo após Março de 2024, mas mais importante para quem vive no aperto mês após mês é saber o que esse governo vai fazer para resolver os problemas na sua vida e na vida do País. É isto que o PCP tem afirmado repetidamente, e a resposta a esta última questão tem ligação directa com o resultado do PCP e da CDU: mais votos e mais deputados do PCP e da CDU tornam cada uma destas reivindicações mais próximas da concretização.
Exemplo desta contradição entre a vida e a bolha político-mediática, a ponto de tornar incompreensível a muitos jornalistas afirmações que se afastem do esquema mental subjacente, foi a recente entrevista ao Secretário-Geral do PCP na CMTV. A forma como o entrevistador pergunta que tipo de acordos se prevêem logo após Paulo Raimundo ter afirmado o que aqui se explica – mais do que discutir a forma, importa debater os conteúdos – revela quão inclinado está o plano mediático.
Se dúvidas restassem, ficaram dissipadas na última terça-feira. Quando tanto se fala de coligações, o PCP e o PEV tiveram um encontro: os dois partidos que participam na coligação que já está no terreno, a CDU. Em quantos noticiários televisivos apareceu? Zero.