O voto do trabalhador vale mais se não for dado aos exploradores
A queda do Governo e a convocação de eleições é indissociável de uma política que une PS, PSD, CDS, Chega e Iniciativa Liberal. Daí que nas legislativas que se avizinham, o confronto é «entre a política ao serviço dos grupos económicos e a alternativa pelos trabalhadores, pelo povo e o País», afirmou Paulo Raimundo, faz hoje uma semana, em Lisboa.
Com o voto na CDU exigir o caminho da alternativa
O Secretário-Geral do PCP interveio no comício em Lisboa, quinta-feira, 23, no salão nobre da Voz do Operário, iniciativa de casa cheia tanto mais assinalável quanto foi realizada ao final da tarde de um dia de semana, como notou o próprio dando o facto como exemplo da existência de força e determinação para contribuir para se alcançar a necessária mudança de política.
A urgência da mudança de política foi, aliás, uma das ideias-chave no discurso de Paulo Raimundo no comício lisboeta, tendo nelas insistido nas duas iniciativas ocorridas posteriormente, no Barreiro, sexta-feira à noite, e em Santiago do Cacém, domingo, ao almoço, justamente sob o lema «É hora de mudar de política» (ver caixas).
De resto, antes de Paulo Raimundo intervir, Mariana Metelo, da JCP – que apresentou o comício num palco onde, para além do Secretário-Geral comunista estavam membros dos organismos executivos da Direcção da Organização Regional de Lisboa do PCP e Ricardo Costa, da Comissão Política –, assegurou ser «possível uma vida melhor para a juventude», na medida em que esta não está condenada às barreiras à entrada no Ensino Superior e às propinas, à falta de condições na escola pública ou à precariedade e à falta de habitação.
Inês Zuber, do Comité Central, por seu lado, lembrou que «as lutas dos trabalhadores que se têm intensificado e diversificado nos mais variados sectores são a expressão mais concreta da exigência de uma política alternativa», revelando, além do mais, «que a crise do Governo é, sim, das opções de direita, da política de exploração».
E foi precisamente por aqui que começou Paulo Raimundo. Se por um lado, os acontecimentos das últimas semanas não avalizam PSD, CDS, Chega e IL a falarem de promiscuidade entre o poder económico e político, convergentes que foram e são com os «autênticos crimes económicos e financeiros» que são as privatizações, por outro, «a verdade é que a demissão do primeiro-ministro e a queda do Governo são inseparáveis da sua política», disse.
«Uma política que não dá respostas aos problemas que a maioria da população e o País enfrentam, ao mesmo tempo que abre todas as portas ao aumento dos lucros e à concentração da riqueza nos grupos económicos e financeiros», precisou o Secretário-Geral do PCP, lembrando que este é «um elemento central de avaliação da actual situação».
Crise nas nossas vidas
Mais do que confrontados com a crise política, os trabalhadores e o povo «enfrentam, e há muito, a crise nas suas vidas», considerou, por isso, o dirigente comunista, para quem «hoje está à vista de todos, tal como o PCP alertou, que o PS pediu estabilidade política», mas «o que o PS queria na verdade era a estabilidade para implementar aquela que é a sua opção de fundo, a política de direita».
«Hoje está à vista de todos o que realmente aconteceu, há dois anos, em torno do dito orçamento mais à esquerda de sempre», continuou Paulo Raimundo, que insistindo que «a vida veio desmentir a ilusão» e mostrar «que o PS não só não foi um obstáculo à política de direita como foi, por sua opção, o seu fiel protagonista». Acusou, ainda, a maioria e Governo de terem passado «dois anos a alimentar e a alimentar-se das forças mais reaccionárias» e governar «em convergência com as posições que PSD, CDS, Chega e Iniciativa Liberal defendem».
Está na hora
O Secretário-Geral do Partido sublinhou razões que confirmam que «está na hora de mudar de política». Mas como também viria a reiterar no comício no Barreiro e no almoço em Santiago do Cacém (ver caixas), acentuou que por muito que muitos tentem bipolarizar as eleições e transformá-las numa escolha de forma de governar, «é em torno do conteúdo da política que se trava o verdadeiro confronto».
«Quais as políticas e a quem servem essas políticas» é que está em causa, ou, dito doutro modo, «o confronto entre a política ao serviço dos grupos económicos e a alternativa pelos trabalhadores, pelo povo e o País», prosseguiu Paulo Raimundo, que deu disso mesmo vários exemplos.
«É para este confronto que estão convocados todos os democratas e patriotas, os trabalhadores e o povo, todos os que cá vivem e trabalham, para com a sua acção, a sua luta e também com o seu voto na CDU exigirem o caminho da alternativa, o nosso caminho, o caminho de Abril», acrescentou o Secretário-Geral do PCP. Salientada foi, por fim, a ideia de que «o único voto útil é na CDU», alertou que o voto do trabalhador, do utente, de cada um de nós, pode valer mais do que o do patrão, dos accionistas da banca, dos donos dos grupos privados que lucram com a doença se não forem entregues aos partidos que lhes garantem os lucros à custa da exploração, da extorsão dos rendimentos e do desmantelamento de serviços públicos e direitos, como no caso do SNS.
SNS precisa de mudança de política
«É mesmo hora de mudar de política. É hora da política se colocar de uma vez por todas ao serviço dos trabalhadores, do povo e do País», salientou Paulo Raimundo no comício no Barreiro que se realizou, um dia depois, 24, na Sociedade Democrática União Barreirense – Os Franceses.
Assim o atestou também João Pauzinho, membro da Direcção da Organização Regional de Setúbal do PCP, ao apresentar as 18 propostas de alteração ao Orçamento do Estado para 2024 dirigidas ao distrito de Setúbal, avançadas pelo Partido na Assembleia da República. Ao longo da sua intervenção, a primeira da noite, o dirigente mencionou medidas que incidem, sobretudo, na melhoria da prestação de cuidados de saúde, de acesso à educação pública e de mobilidade na região.
Sobre a saúde falou igualmente o Secretário-Geral: «é hora de salvar o SNS das mãos do negócio da doença e de responder às justas reivindicações dos médicos, enfermeiros, técnicos, de todos os profissionais e utentes. É mesmo preciso salvar o SNS deste processo em curso de desmantelamento».
Abordando ainda a medida de «desburocratização» do SNS anunciada no dia anterior pelo ministro da Saúde, Paulo Raimundo caracterizou a possibilidade da emissão de baixas médicas pelo sector privado como «inqualificável». «No mesmo dia, o Governo que mais uma vez travou as negociações com os médicos, foi o mesmo que, em conselho de ministros, decidiu abrir mais uma área de negócio para o grupos privados».
«O SNS tem que ter as condições para responder aos problemas dos utentes. O Governo o que faz é não criar essas condições para justificar mais negócio da doença», constatou por fim.
Portugueses sem memória curta sobre reformas e pensões
No dia 26, no almoço-comício em Santiago do Cacém, Paulo Raimundo reagiu à «chuva de promessas» do PSD, táctica «usada e abusada» pelo partidos da rotatividade em período de eleições. «A táctica é conhecida, muda-se o líder e o conta quilómetros volta ao zero. O que ficou para trás, para trás ficou, o mal feito fica para o anterior e agora é que vai ser… Sempre a mesma história», criticou.
Para o Secretário-Geral, nem vale a pena recuar oito anos para desconstruir as promessas de aumentos nas pensões feitas, no dia anterior, pelo PSD. «Recuemos apenas dois dias», questionou, «perante a proposta do PCP de aumento das reformas e pensões em 7,5 por cento, com um mínimo de 70 euros, o que fez o PSD?». «Juntou-se ao PS, IL e Chega, uns contra, outros abstendo-se, e inviabilizaram o aumento justo e necessário», lamentou.
Paulo Raimundo foi antecedido por Álvaro Beijinha, presidente do executivo municipal da CDU de Santiago do Cacém, que destacou o papel do PCP na defesa do concelho e referiu os principais problemas que, por falta de investimento público, afectam aquele território.
Já Filipa Palhavã, da Direcção da Organização Regional do Litoral Alentejano do PCP, fez um balanço da actividade do Partido na região e das propostas apresentadas em prol do desenvolvimento local. Por sua vez, Tomás Simãozinho, da Direcção Nacional da JCP, denunciou as dificuldades enfrentadas pelos jovens naquele concelho, como a falta de acesso à educação, à habitação e ao trabalho digno.