Não perdem tempo
Ainda o cadáver do Governo PS não arrefeceu e já o grande capital decidiu montar o circo da alternância sem alternativa.
Repare-se no notável exercício que a RTP, silenciando o facto dos partidos da CDU, PCP e PEV, se terem reunido para preparar as eleições, fez esta terça-feira chamando a debate, em horário nobre, PS e PSD, para responder à questão «Quem vai ganhar as eleições?».
Pior, na ausência de interlocutor evidente do PS, a RTP, note-se bem, convidou este partido em dose dupla, supostamente para representar as sensibilidades internas, mesmo que sejam três os candidatos a concurso.
Coadjuvados por um fazedor de sondagens, que explica o que as pessoas querem fazer a partir de um punhado de telefonemas, e por um costumeiro comentador, que tinha por incumbência vir dizer que o que interessa são as pontes de contacto e que os Partidos do centro se devem entender, voltámos à história de sempre sobre qual dos dois promete mais o contrário do que fizeram enquanto estiveram no poder.
A RTP procura assim contrariar três elementos por demais evidentes.
O primeiro é que o que está em causa nas eleições legislativas não é quem ganha, não é quem fica à frente, não é sequer a eleição do primeiro-ministro, antes é a eleição de 230 deputados, a partir dos quais se encontrarão as soluções políticas e institucionais.
O segundo é que, como nas recentes eleições na Madeira, uma vez mais, se comprovou, as sondagens são usadas não como instrumentos de avaliação de tendências sobre opções de voto em cada momento, mas como pretexto para justificar opções editoriais, que se inserem na tentativa de condicionar a vontade dos eleitores, ao serviço do bloco central dos interesses.
O terceiro é que no monólogo a duas vozes a que assistimos, que nada difere das guerras de alecrim e manjerona a que estes dois siameses nos habituaram, o que é preciso é evitar a voz do questionamento ou a mais leve centelha de alternativa.
Ouvindo-os trocar larachas sobre o mais recente coelho tirado da cartola pelo PSD, que promete agora rendimentos aos pensionistas que roubaram quando tiveram essa hipótese, percebemos bem porque é que a voz do PCP teve de ser afastada. Caso contrário, uns e outros teriam de explicar porque não apoiaram a aprovação, já neste Orçamento do Estado, da proposta do PCP de aumento de 70 euros nas pensões.