«Anarco-capitalismo»
Tal como o fascista Pinochet teve um guia económico em Milton Friedman e seus Chicago boys, o recém eleito presidente da Argentina, Milei, tem como farol espiritual Murray Rothbard, um «anarco-capitalista».
Para os menos familiarizados com o marxismo poderá parecer extravagante a associação entre anarquia e o capitalismo mais desenfreado. Acontece que a identificação da «anarquia da produção capitalista» é um tema central em Marx e Engels. É um dos fundamentos teóricos para a concepção do lugar do Estado na construção do socialismo.
Milei diz querer acabar com o Estado ou reservar-lhe apenas o papel repressivo. Diz-se «anti-sistema». Mas o «sistema», que não dorme, foi quem o promoveu.
Em 2018 foi de longe o economista mais consultado em programas de rádio e TV. Fizeram-lhe 235 entrevistas e teve 193.547 segundos de tempo de antena. Nos anos seguintes sucedeu o mesmo. Nenhum político teve semelhante projecção. Sabe-se, lá como cá, quem controla os grandes media.
Uma desmesurada projecção mediática pode, ou não, converter-se em capital político. Mas, de Trump a Zelensky (e por cá também), ajuda. Todavia, não é essa a única forma de o «sistema» influenciar um resultado eleitoral. É a capacidade de fazer protagonizar em semelhantes candidatos o sentimento de frustração social, económica e política, a cólera de muito amplas camadas do povo face às condições de vida que o próprio «sistema» lhes impõe.
É preocupante. Mas, também aqui, Marx ajuda: «[a anarquia da produção capitalista gera] oscilações que […] fazem tremer a sociedade burguesa nos seus alicerces.» O capitalismo pode conseguir eleger aqui e ali os seus «anarco-capitalistas». O que não pode é resolver as suas próprias contradições internas. Serão elas – e, mais do que elas, a luta dos trabalhadores e dos povos para o arrumar de vez – quem resolverá a questão.