A luta dos docentes em defesa dos direitos e da dignidade profissional
A educação é um valor estratégico para o desenvolvimento do País
A luta desencadeada pelos professores e educadores contra a desvalorização da carreira docente constitui uma significativa resposta ao conflito aberto pelos sucessivos governos de PS, PSD e CDS e, mais recentemente, com o apoio de Chega e IL. No centro das reivindicações tem estado a recuperação do tempo de serviço não contabilizado.
Têm razão os docentes, como todos os outros trabalhadores da Administração Pública, nomeadamente os que integram os chamados corpos especiais, que, entre outros requisitos de verificação obrigatória, progridem na carreira de acordo com o tempo de serviço – todo o tempo e não apenas uma parte. Para os docentes, são actualmente seis anos, seis meses e 23 dias de trabalho, para muitos desenvolvido em condições precárias – 10, 15, 20 e mais anos, deslocados das suas famílias, por vezes a centenas de quilómetros – mas que, mesmo assim, deram um contributo que não pode ser apagado.
Ter um vínculo público, acesso a uma carreira valorizada e progressão mediante condições definidas no estatuto profissional são condições essenciais para garantir a motivação de professores e educadores para o trabalho na Escola Pública.
Direitos e pedagogia
Quem põe em causa a carreira docente e prefere regras de progressão dependentes de uma relação de submissão dos professores aos responsáveis da escola e de uma aceitação de métodos de ensino e conteúdos curriculares que lhe retiram autonomia e capacidade de gerir o trabalho pedagógico, considera que os objectivos da luta são corporativistas, procurando virar uns trabalhadores contra outros. Omite, assim, uma realidade há muito confirmada: a luta sectorial é decisiva para se atingirem objectivos gerais e não o contrário.
Para muitos propagandistas do sistema dominante, a Escola Pública de qualidade, democrática e gratuita e um corpo de professores com um grau de autonomia reforçado e motivado para desenvolver uma actividade pedagógica não limitada à matéria estabelecida, mas que, pelo contrário, possa ter um papel fundamental na transmissão de valores e competências que permitam aos alunos participar de forma consciente na vida do País, são alvos a abater.
Apesar do vaticínio da perda de importância do professor a curto prazo, como resultado do processo de desenvolvimento das Tecnologias Digitais da Educação, a realidade confirma que os professores são indispensáveis ao desenvolvimento humano e do País. Esta constatação reclama a valorização da profissão docente e não, como há muito vem ocorrendo, a tentativa de transformar os professores em instrumentos de formatação de consciências, na perspectiva e de acordo com os interesses dos mandantes da política de direita e do grande capital.
Escola, vida, política
A escola não constitui um mundo à parte, vive integrada na sociedade. Todas as mudanças que se construam a partir da escola terão consequências na vida em sociedade. Por isso os arautos da política de direita tudo fazem para impedir mudanças de sentido progressista. Neste binómio escola-vida, com uma relação dialéctica entre a educação, a escola e o sistema social, quanto mais forte for a luta dos professores, dos estudantes, de todos os trabalhadores da educação e dos pais, maiores serão as possibilidades dessas alterações reflectirem os valores da democracia e do progresso social.
O confronto há muito que deixou de ser apenas sindical. Um núcleo significativo de docentes ganhou consciência de que o que parecia ser teimosia, prepotência e incompetência é, afinal, um problema de política e que é preciso alterar a correlação de forças no plano institucional. Está-se, portanto, perante um processo de crescente consciencialização de classe e política.
O Governo do PS tem de perceber que, caso não reponha o direito à contagem integral do tempo de serviço e ao posicionamento remuneratório correspondente, ficará associado ao PSD (cuja recente proposta demagógica não apaga o facto de ser responsável por, em 2019, não ter sido recuperado todo o tempo não contabilizado) e ao CDS, que poderá ficar conhecido como o que perpetrou o maior assalto aos professores e educadores no Portugal de Abril.
O desenvolvimento de uma política educativa que assuma a educação como um valor estratégico fundamental para o desenvolvimento do País, a criação de condições de estabilidade profissional e de emprego para todos os trabalhadores das escolas, docentes e não docentes, a par da aprovação de medidas que visem a sua valorização e dignificação, são parte integrante da política patriótica e de esquerda que o PCP propõe.