Lucros de porta aberta

Margarida Botelho

Há artigos que nascem escritos, porque há evidências muito evidentes e lampejos de honestidade intelectual na comunicação social.

Escreveu o Eco: «um antigo banqueiro apelidou os actuais resultados dos bancos como “lucros de porta aberta”, pois um banco pouco mais precisa do que ter o balcão aberto para ganhar dinheiro por conta das elevadas taxas de juro.» E continua, explicando que BCP, Santander Totta, BPI e Novo Banco praticamente duplicaram os lucros nos primeiros nove meses do ano, quando comparado com período igual em 2022, porque, com a subida das taxas de juro do Banco Central Europeu, os bancos cobram mais pelos empréstimos às famílias e às empresas, mantendo pagamentos muito baixos nos depósitos. Posteriormente a este artigo, conheceram-se os resultados da Caixa, que catapultam os lucros dos cinco maiores bancos para 3,3 mil milhões de euros até Setembro, mais 75% do que no ano passado.

É verdade que a expressão «porta aberta» nem sequer é muito rigorosa, porque entre encerramentos de agências e reduções de horários há cada vez mais dificuldades de ir ao balcão de um banco, mas perdoa-se a falta de rigor com o acerto da metáfora.

Em novo artigo poucos dias depois, o mesmo Eco voltava a trazer uma notícia importante: «este resultado permite anular as avultadas perdas que o sector registou na trágica década de 2010, marcada pelo resgate financeiro a Portugal e pelos problemas na banca, que culminou na falência do BES (2014) e do BANIF (2015) e na intervenção do Estado noutras instituições, como o BCP e o BPI.»

«Avultadas perdas», recorde-se, pagas com o dinheiro de todos nós. Os mesmos «nós» que agora lhes pagamos novamente os lucros, à força. É hora de lhes fechar a porta, não é?




Mais artigos de: Opinião

Pensamento estratégico para a Protecção Civil

O Encontro Nacional do PCP Do papel e política do Estado aos meios necessários – Uma outra política de Protecção Civil permitiu aprofundar o conhecimento das múltiplas vertentes, problemas e vulnerabilidades do sistema de Protecção Civil e definir o sistema alternativo que o PCP defende....

Quadro de guerra

O risco de alastramento da guerra no Médio Oriente, fruto da acção genocida do Estado sionista de Israel  na Palestina é um dos temas em foco da agenda internacional, na semana em que se anuncia o encontro de Biden e Xi em São Francisco, à margem da Cimeira da APEC (Cooperação Económica Ásia-Pacífico). Na última semana,...

Em vez de água

«Há falta de caixeiros viajantes, todos querem fazer jornalismo.» O irónico aforismo é do judeu austríaco Karl Kraus, escritor e jornalista do séc. XX conhecido por fustigar a hipocrisia social da sua época, de que é exemplo o seu manifesto contra o sionismo ou a incansável denúncia do jornalismo e dos jornais nas suas...

Das clarificações e dos perigos para o regime democrático

A atenção mediática sobre a situação político-institucional está centrada em dois aspectos: o processo de investigação em curso e suas expressões judiciais, e a «manutenção de condições políticas» de vários titulares de cargos públicos. É uma evidência que, independentemente do desfecho jurídico, o conjunto dos...

O senhor Governador

Não me ocuparei dos convites ou desconvites a Mário Centeno para substituir António Costa na gestão dos negócios da política de direita, nem discutirei a legitimidade política de tal possibilidade, porque agora como sempre o que faz falta não é a substituição de protagonistas entre os mesmos do costume, mas a mudança da...