Lucros de porta aberta
Há artigos que nascem escritos, porque há evidências muito evidentes e lampejos de honestidade intelectual na comunicação social.
Escreveu o Eco: «um antigo banqueiro apelidou os actuais resultados dos bancos como “lucros de porta aberta”, pois um banco pouco mais precisa do que ter o balcão aberto para ganhar dinheiro por conta das elevadas taxas de juro.» E continua, explicando que BCP, Santander Totta, BPI e Novo Banco praticamente duplicaram os lucros nos primeiros nove meses do ano, quando comparado com período igual em 2022, porque, com a subida das taxas de juro do Banco Central Europeu, os bancos cobram mais pelos empréstimos às famílias e às empresas, mantendo pagamentos muito baixos nos depósitos. Posteriormente a este artigo, conheceram-se os resultados da Caixa, que catapultam os lucros dos cinco maiores bancos para 3,3 mil milhões de euros até Setembro, mais 75% do que no ano passado.
É verdade que a expressão «porta aberta» nem sequer é muito rigorosa, porque entre encerramentos de agências e reduções de horários há cada vez mais dificuldades de ir ao balcão de um banco, mas perdoa-se a falta de rigor com o acerto da metáfora.
Em novo artigo poucos dias depois, o mesmo Eco voltava a trazer uma notícia importante: «este resultado permite anular as avultadas perdas que o sector registou na trágica década de 2010, marcada pelo resgate financeiro a Portugal e pelos problemas na banca, que culminou na falência do BES (2014) e do BANIF (2015) e na intervenção do Estado noutras instituições, como o BCP e o BPI.»
«Avultadas perdas», recorde-se, pagas com o dinheiro de todos nós. Os mesmos «nós» que agora lhes pagamos novamente os lucros, à força. É hora de lhes fechar a porta, não é?