Duas notícias, uma conclusão

Gustavo Carneiro

Uma notícia recente revelou que o investimento em Certificados de Aforro caiu 85 por cento em Julho, face à média dos primeiros cinco meses de 2023: de uma média mensal de 2,85 mil milhões de euros aplicados neste instrumento de poupança, registada entre Janeiro e Maio, passou-se de uma penada para os 670 milhões em Junho e, no mês seguinte, para os 390 milhões. Estas perdas terão agora de ser compensadas através do financiamento junto da banca nacional e estrangeira.

A explicação para tão brusca alteração das opções de investimento dos portugueses é simples e – reconheça-se – ninguém a procurou iludir. A 2 de Junho, dias após o «apelo» feito nesse sentido pelo chairman do Banco CTT, João Moreira Rato, o Governo anunciou o fim da Série E dos Certificados de Aforro, que garantia aos seus detentores uma remuneração até 3,5 por cento. Para o seu lugar foi anunciada uma nova série, a F, bem menos apelativa (a sua taxa de juro será, no máximo, de 2,5 por cento).

Há, nesta matéria, um antes e um depois do anúncio do Governo. Isso mesmo foi salientado pelo jornalista Alberto Teixeira, que numa peça publicada a 23 de Agosto no jornal digital Eco situa aí o fim da «autêntica corrida aos certificados que – acrescenta – chegou a assustar os bancos por conta das saídas massivas de depósitos». Só entre Janeiro e Março deste ano, 7,6 mil milhões de euros saíram da banca para os Certificados de Aforro e compreende-se porquê: os juros pagos pelos depósitos a prazo rondam 1 por cento, sendo dos mais baixos de toda a Zona Euro e ficando longe, muito longe, das condições garantidas pela Série E.

Os lucros, esses, continuam imparáveis: em finais de Julho, o mesmo jornalista notara que «os principais bancos portugueses tiveram um lucro recorde de 1,99 mil milhões de euros no primeiro semestre do ano», cerca de 11 milhões por dia.

Outra notícia dava conta de um aumento significativo, superior a 20 por cento, do número de partos realizados nos três principais hospitais privados de Lisboa (Luz, Lusíadas e CUF) na primeira metade do ano. A explicá-lo estão os encerramentos rotativos das maternidades públicas aos fins-de-semana, por falta de profissionais, e um sentimento de insegurança a que não será alheia a campanha mediática em curso contra o SNS. A contribuir para estes números estará também o facto de, desde Junho, o Estado pagar até 3000 euros aos hospitais privados por parto de mulheres seguidas no serviço público.

Estes são dois exemplos flagrantes de opções políticas ao serviço dos grupos económicos, com efeitos imediatos a favor destes. Dando razão a Marx e a Engels quando afirmaram, no Manifesto do Partido Comunista, que no capitalismo o Estado tende a ser uma comissão administradora dos negócios da burguesia.




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