Profetas de campanha

Luís Carapinha

A China continua a crescer muito acima das principais potências capitalistas

Agosto fez disparar o alarme para a «crise» da economia chinesa nas parangonas dos grandes média internacionais e análises de «reputadas» consultoras financeiras mundiais. A insolação de advertências e previsões é impiedosa: a «iminente espiral descendente» económica, em que «o pior ainda está para vir»; o «perigo de contágio» para a economia global do «possível colapso» da maior imobiliária da China; a «fuga dos investidores e dos hedge funds» (os chamados fundos de cobertura, altamente especulativos) do mercado de acções da China; a «japanização» da China (alusão às décadas de estagnação que assolam a economia nipónica após a sua ascensão); o «momento Lehman» de Pequim (paralelo com o colapso do banco Lehman Brothers em 2008, a maior falência da história dos EUA e símbolo da, então, maior crise económica capitalista desde 1930), etc.

Do alto da sua inefável credibilidade, Joe Biden deu a tónica, qualificando a China de «bomba-relógio» face aos seus «problemas económicos».

Vozes menores na «imprensa livre» destoam do foco da campanha insidiosa. Um colunista avisa para os «investidores poderem concluir que as autoridades chinesas estão simplesmente a brincar com os mercados globais», sublinhando que ao «eliminar a especulação e alavancagem» (endividamento), Pequim está a «preparar o terreno para um investimento mais eficiente e produtivo». Outro lembra que «o verdadeiro desequilíbrio chocante é o nível extraordinariamente elevado do investimento no produto da China – actualmente 44% do PIB» – que, acrescente-se, é tudo o que há muito está ausente das economias estagnadas dos EUA e restantes potências do G7. Sem dúvida que o facto de a maior parte da dívida chinesa estar denominada em yuans, envolver a banca estatal, dominante, e do fluxo de capitais não ter sido liberalizado dá outra margem de manobra à política económica da China, factores que os mentores do pânico económico chinês anseiam por ver alterados.

Há um cemitério de previsões apocalípticas relativas à China nas últimas décadas. Mais do que assente em indicadores objectivos, a campanha em curso configura uma manobra de diversão e de inversão da realidade, perante o inquietante agravamento do panorama económico próprio – e a China continua a crescer muito acima das principais potências capitalistas e, ao contrário destas, a registar aumentos palpáveis dos salários reais –, coincidindo com a cimeira do BRICS e a sua «histórica expansão», nas palavras de Xi Jinping. Insere-se, ao mesmo tempo, na frente de desestabilização da China, na guerra económica e tecnológica conduzida pelo imperialismo norte-americano e visa escamotear os efeitos «colaterais» da estratégia de desacoplagem e confrontação de Washington. Efeitos inegáveis, reflectidos num quadro de estagflação, nos riscos económicos de Wall Street, no espectro da recessão, já realidade na Alemanha, e perspectivas sombrias para o comércio e economia mundiais.

Não significa isto, na matriz e dinâmica da divisão internacional do trabalho e da teia de interdependências, ignorar os desequilíbrios e desafios salientes da China. A «prevenção dos riscos financeiros» tem sido enfatizada no país que, de acordo com o seu primeiro-ministro, se «encontra num período crítico de transformação económica e modernização».




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