«Palas» de classe

Manuel Rodrigues

Foi recentemente anunciado que o Governo pretende contratar entre 200 a 300 médicos da América Latina (muitos deles, de nacionalidade cubana) para cobrir necessidades de cuidados de saúde primários no Alentejo, Algarve, e Lisboa e Vale do Tejo.

Divulgada a intenção, logo, em reacção, se levantavam as vozes do PSD, CDS, IL e Chega, investindo contra uma alegada violação de direitos humanos que tal contratação envolveria.

Sobre a degradação do SNS – e de que é responsável a política de direita prosseguida por PS, PSD e CDS, a que se juntaram entretanto o Chega e IL –, sobre as razões que levam à falta de médicos (e de outros profissionais) nos serviços públicos de saúde em Portugal, sobre o milhão e seiscentos mil utentes sem médico de família ou os 6 mil milhões transferidos do Orçamento do Estado para os grupos económicos que fazem fortuna com o negócio da doença, sobre os milhões de euros que vão para as empresas de serviços que em Portugal exploram médicos e enfermeiros tarefeiros, nem uma palavra; sobre os numerus clausus nos cursos de Medicina que durante muitos anos determinaram enormes défices na formação dos médicos hoje necessários ao SNS, nada se ouviu. E nada se ouviu ainda sobre a necessidade de valorização e a dignificação dos profissionais de saúde por forma a fixar no SNS todos os que ali fazem falta.

Aproveitam, isso sim, para despejar sobre Cuba uma série de injúrias e insultos. Dizem estar muito preocupados com os direitos humanos naquele País. Dizem ver situações de «escravatura médica» nas condições contratuais com aqueles médicos mas omitem deliberadamente o que é verdadeiramente essencial: que a investigação médica e o sistema de saúde cubano ocupa um lugar cimeiro a nível mundial, que o acesso à saúde do povo cubano é um direito efectivamente garantido.

Muito menos se questionam sobre as razões que levam a que ao longo de seis décadas, apesar do cruel, desumano e criminoso bloqueio imposto pelos EUA a Cuba, mais de 600 mil profissionais de Saúde cubanos (médicos, enfermeiros, técnicos) tenham integrado missões de solidariedade em 165 países, sobretudo na América Latina, Caraíbas, África e Ásia: e que, hoje, em 58 desses países, estejam para cima de 22 mil, na maioria mulheres.

Não querendo enxergar o que é essencial, condicionados pelas «palas» de classe dos interesses que defendem, exibem uma hipocrisia sem limites. Mas é esta a sua natureza.

 



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