Cereais, do problema ao pretexto
No maniqueísmo dominante de abordagem da guerra a questão dos «cereais» aí está de regresso. Rodeado dos mesmos equívocos, da mesma parcialidade e da mesma instrumentalização. Explorando sentimentos genuínos de inquietação com tema tão sensível quanto o da fome. Mas fazendo-o com aquele cinismo que embebe os que indiferentes à fome extrema que há décadas assola continentes, procuram lavar responsabilidades próprias que resultam das políticas de saque e de desestabilização presentes na estratégia de dominação imperialista. E, sobretudo, fingindo ignorar o impacto que as sanções impostas à Rússia, dos cereais aos fertilizantes ou aos produtos energéticos, traduzem nesse plano. Manipulando os impactos directos da guerra na Ucrânia tornando-os sinónimos de novos e ambicionados planos para, a esse pretexto, garantir o seu aproveitamento especulativo. Atribuindo apenas a uma das partes do conflito responsabilidades que estão para lá dos intervenientes directos no conflito. Lamenta-se que o secretário-geral das Nações Unidas tenha optado por dar lastro aos que buscam a escalada e prolongamento da guerra. Guterres teria o dever de saber que o problema não se resume à reclamação de que a Rússia regresse ao Acordo tanto mais que não ignorará que na base desta decisão está o incumprimento desse mesmo acordo e dos pressupostos em que ele vigorava. Mesmo sabendo-se que a anunciada oferta de cereais por parte da Rússia a países africanos está muito para lá de um genuíno gesto de altruísmo, o posicionamento depreciativo de Guterres criticando o que designa de «mão cheia de doações» só encontra explicação numa deliberada atitude de parcialidade e alinhamento com os EUA e a União Europeia. Sempre se poderá dizer que sem surpresa. Não só a permanência no cargo carece das boas graças do poder dos EUA como o seu actual titular já deu provas com o apoio que patrocinou de Portugal à agressão à Jugoslávia. Mas sendo tudo isto óbvio não se pode deixar de exigir que todos, a começar pelas Nações Unidas, se empenhem em vias de diálogo que assegurem uma solução pacifica para o conflito que ponha fim à destruição e perdas de vida que, podendo ter sido evitado, precisa de ser urgentemente estancado.