A favor do calendário mas contra a corrente
O País mediático andou, na última semana, de volta do estado da nação. Houve muitos artigos escritos, muitos debates, muito comentário sobre o Governo, a sua orgânica, o futuro deste ou daquele ministro, do próprio primeiro-ministro, de casos de gravidade variada e cuja importância mediática vai subindo e descendo ao sabor de vagas.
No meio de tudo o que se escreveu e disse, faltou muito do que é determinante na vida das pessoas: o salário, a pensão, a habitação, o acesso à saúde, à creche ou ao pré-escolar, a taxa de inflação que se diz descer sem reflexo nos bolsos de cada um. A intensa discussão de natureza especulativa prossegue e, com ela, é dado palco mediático aos que vão aproveitando a onda; da intervenção do PCP, centrada nos problemas do País e de quem cá vive e trabalha sobrou muito pouco nos espaços informativos.
Vejamos um exemplo recente de escandaloso silenciamento do PCP: na véspera da votação do relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito sobre a TAP, foi apresentado um livro, com a participação do Secretário-Geral, que sistematiza a análise do PCP sobre os caminhos que trouxeram a companhia aérea nacional à situação actual, incluindo muita informação que resultou da Comissão de Inquérito, e expõe o crime político e económico que constitui a intenção de insistir numa nova privatização. É um daqueles casos em que o calendário e o tema se casam com as prioridades mediáticas, uma iniciativa e um livro particularmente oportuno e que nenhum outro partido concretizou.
Para lá de referência na imprensa – ainda que bastante mais curtas para afirmações de outras forças políticas que se resumiam à não apresentação de qualquer proposta de alteração ao relatório da Comissão de Inquérito –, nem uma peça de televisão chegou à antena sobre a apresentação do livro. Refira-se a excepção, com a entrevista do Jornal 2 (da RTP2, o mais curto dos noticiários televisivos nacionais) ao Secretário-Geral do PCP a propósito do lançamento. Temos, portanto, uma iniciativa oportuna e única, mas nem isso levou a que quem decide os alinhamentos dos principais noticiários televisivos tenha reservado atenção e espaço.
É certo que o que o PCP afirma sobre a TAP (apontando as danosas e mesmo criminosas acções promovidas ao longo das últimas décadas pelos governos de PS, PSD e CDS na companhia aérea, e combatendo as novas pulsões privatizadoras) está contra a corrente política e mediática. É mais um tema em torno do qual fica clara a dominação do poder económico sobre o poder político (e sobre a comunicação social dominante, cuja propriedade está hoje, quase exclusivamente, nas suas mãos).
Curiosamente, a excepção à regra do apagão televisivo veio da RTP, empresa que ainda é pública e que tantos, nos últimos anos, tentaram entregar a um qualquer grupo económico. Num momento em que se discute discretamente a revisão do contrato de concessão de serviço público de televisão e rádio, talvez importe imaginar o que seria termos mais uma televisão nas mãos do poder económico.