Conflito no Sudão ainda longe da paz
Sem fim à vista, prossegue a guerra no Sudão entre duas facções das forças armadas sudanesas. Há já milhares de mortos e feridos e milhões de deslocados e refugiados. Continuam os esforços de mediação do conflito, apesar de até agora terem falhado diversas tentativas de um cessar-fogo duradouro.
Nesta quinta-feira, 15 – três meses após o começo dos combates –, realiza-se no Egipto uma cimeira para debater a crise e procurar caminhos que conduzam à paz. O presidente egípcio, Abdel-Fattah El-Sisi, precisou que o objectivo da cimeira de países vizinhos do Sudão é a busca de uma solução pacífica, em coordenação com «actores regionais e internacionais». Além de pôr termo ao derramamento de sangue entre sudaneses, frisou, o encontro visa «proteger o Estado sudanês e os seus recursos» e travar os efeitos graves da guerra no quadro da segurança e estabilidade de toda a região. Alertou que o conflito no Sudão é um assunto interno, pelo que importa evitar qualquer ingerência no país. Participam na cimeira os chefes de Estado e de governo do Egipto, Chade, República Centro-Africana, Sudão do Sul, Etiópia e Eritreia, além de representantes da Líbia.
Por outro lado, dirigentes dos países integrantes do chamado Quarteto IGAD manifestaram, no começo desta semana, em Adis-Abeba, o seu alarme pelas consequências da guerra no Sudão, com milhares de mortos e feridos e quase três milhões de deslocados e refugiados. Numa reunião na capital etíope entre dirigentes da Etiópia, Djibuti, Sudão do Sul e Quénia, membros da Autoridade Inter-governamental para o Desenvolvimento (IGAD) – juntamente com a Eritreia, Somália e Uganda –, foi revelado que a guerra sudanesa provocou já 2,2 milhões de deslocados internos, havendo 700 mil refugiados em países vizinhos. O quarteto alertou para a escalada do conflito e as reiteradas violações dos vários acordos de cessar-fogo, bem como para o alastrar da violência a partir de Cartum para outras zonas do país, em especial o Darfur e o Cordofão, regiões meridionais onde a guerra está a adquirir «dimensões étnicas e religiosas», ameaçando assim aprofundar a «polarização» no país africano. O IGAD «instou encarecidamente» as duas partes a pôr fim imediato à violência e assinar um cessar-fogo incondicional e sem prazo, mediante um acordo de fim das hostilidades apoiado por um mecanismo efectivo de acompanhamento. Decidiu, face à deterioração da situação humanitária em Cartum e outras cidades, adoptar medidas concretas para facilitar a assistência imediata a todos os sudaneses afectados pelas acções bélicas.
Os confrontos armados no Sudão opõem facções lideradas, uma, pelo presidente do Conselho Soberano de Transição, general Abdel Fattah al-Burhan, e, outra, pelo seu ex-aliado Mohamed Hamdan Dagalo, chefe das milícias denominadas Forças de Intervenção Rápida. Os dois militares encabeçaram um golpe de Estado, em 2019, contra o presidente Omar al-Bashir e outro golpe de Estado, em Outubro de 2021, que afastou o primeiro-ministro Abdalá Hamdok. Tanto al-Burhan como Dagalo, contando com apoios estrangeiros, foram contra o retorno dos militares aos quartéis e são responsáveis pela forte repressão das grandes manifestações populares que exigiram, nas ruas, desde 2018, a formação de um governo civil e democrático.