Três mil e novecentos
Esta é, em metros, a profundidade do Oceano Atlântico na zona onde se encontram os destroços do Titanic, um dos mais «mediáticos» naufrágios da História, que deu origem a livros, documentários, filmes, expedições e ao milionário negócio da aventura submarina.
3900 metros é, por isso, a profundidade a que estarão os destroços do Titan, o mini-submarino da empresa Ocean Gates Expedition que realizava viagens aos destroços do Titanic.
Cada um dos participantes da aventura pagava a quantia de 250 mil dólares para descer às profundezas num submarino que sabiam não estar certificado. O acidente ocorreu a 18 de Junho. Foram mobilizados dezenas de sofisticados meios de busca e resgate de vários cantos do mundo. Tudo foi acompanhado ao minuto pela generalidade dos órgãos de comunicação social do globo. Passadas mais de 96 horas a notícia da implosão e da morte dos cinco ocupantes chegou, causando comoção mundial. Sabe-se hoje que alguns dos «mais próximos» já sabiam do desfecho muitas horas antes da notícia ter terminado com a espiral mediática mundial que gerou milhões e milhões em receitas.
Mas 3900 metros é também a profundidade do Mediterrâneo na zona onde, a 14 de Junho, naufragou uma embarcação pesqueira que transportava cerca de 700 refugiados vindos da Líbia. Pelo menos 100 seriam crianças, trancadas no porão da embarcação. O naufrágio durou 10 a 15 minutos. O navio não foi socorrido quando e como devia. Virou quando a guarda costeira grega decidiu rebocar a traineira superlotada. Morreram cerca de 500 pessoas. Desde 2014 estima-se que sejam 25 mil. Os barcos que tentam salvar estas vidas são regularmente acusados de apoio a imigração ilegal.
A cobertura mediática de mais esta catástrofe foi rápida e fria, e quase certamente não será tema de blockbusters. Porquê? Porque as mortes de quem foge da pobreza, da guerra e da morte, e é negro ou árabe, não são «espectaculares» e não vendem audiências. Mas não só. Para quem manda, essas mortes não devem causar comoção generalizada e não podem parecer-nos próximas. Se assim fosse poderia medrar a consciência das causas de fundo pelas quais o Mediterrâneo se transformou num tenebroso cemitério do racismo, da xenofobia e dos crimes imperialistas. Ali não interessa fazer expedições.
A menos que queiramos mudar o mundo.