A JCP e o «Despertar da Alma Colectiva das Massas»
A JCP realizou no dia 6 de Junho, no Largo da Academia Nacional de Belas Artes, em Lisboa, uma sessão em torno dos 90 anos da publicação do livro «A Cultura integral do Individuo – problema central do nosso tempo», de Bento de Jesus Caraça, onde foi inaugurada a exposição temporária «Despertar da Alma Colectiva das Massas».
Na mesa, com Afonso Nunes, que moderou os trabalhos, estiveram Catarina Pereira, também da JCP, e Manuel Rodrigues, da Comissão Política do Comité Central do PCP. Ao introduzir o tema, Afonso Nunes recordou que aquela obra foi publicada após Bento de Jesus Caraça ter sido convidado a participar numa Conferência organizada pela Mocidade Livre, em 1933. A obra, que expõe a «importância da cultura no desenvolvimento colectivo e o problema central do acesso à cultura», bem como o papel revolucionário da componente cultural no desenvolvimento social e o seu papel na libertação individual e colectiva, foi escrita num período marcado pela «ascensão do fascismo por toda a Europa» e a sua consolidação em Portugal, recordou o jovem comunista. Informou também que o resistente anti-fascista foi «fundador do Movimento de Unidade Nacional Antifascista, director da biblioteca Cosmos, fundador da gazeta Matemática, professor catedrático do ISCEF (actual ISEG) e militante comunista».
Catarina Pereira, estudante na Faculdade de Belas Artes, reforçou, por seu lado, que a cultura é vista como uma «ferramenta fundamental para a tomada de consciência e para a conquista da liberdade», que o domínio cultural é uma ferramenta para o domínio de classe e o «papel de quem produz cultura é produzir conhecimento e transmitir saber». Mais adiante, a jovem comunista realçou a ideia de que «um homem sábio não é necessariamente um homem culto», bem como a elite cultural não é necessariamente a elite económica». Recordou assim que o PCP tem propostas para a democracia cultural, como o acesso generalizado à fruição cultural; o apoio público à criação, produção e difusão culturais; a valorização dos trabalhadores da cultura; a defesa do património cultural; a promoção internacional da cultura portuguesa e o combate à colonização cultural e a democratização da cultura.
Afonso Nunes voltou a tomar a palavra, desta vez acerca das diferenças entre o nacionalismo e o patriotismo. Considera o primeiro como a «venda da pátria ao capital internacional» e como uma bandeira que divide trabalhadores. Já quanto ao patriotismo, retrata-o como internacionalista e «defensor da autonomia, soberania e desenvolvimento dos povos».
Origem de classe
A terminar, Manuel Rodrigues falou em torno dos contributos de Bento de Jesus Caraça ao pensamento marxista, às reflexões do Partido sobre a cultura e a questão económica. Sobre o autor, salientou que o professor era próximo dos estudantes e nunca se esqueceu da sua origem de classe, como um intelectual que sempre se manteve junto do seu povo e nunca abandonou a sua militância comunista, apesar das consequências nefastas a que o fascismo o sujeitou. Para Manuel Rodrigues, Bento de Jesus Caraça personificou aquilo que ele próprio apontava como um homem culto: alguém que «conhece a sua posição no cosmos e na sociedade a que pertence, que entende a sua dignidade enquanto ser humano e procura constantemente aperfeiçoar o seu interior – nomeadamente nas suas qualidades físicas, morais, intelectuais e artísticas».
Estes são alguns elementos que constituem, para Bento de Jesus Caraça, um homem culto. Para tal, é preciso resolver o problema económico em primeiro lugar, de forma a alargar o acesso à cultura a todas as camadas sociais.
No final, houve espaço para perguntas e para que cada pessoa pudesse pintar, numa faixa, algo que para si constitui um elemento da formação integral, como o desporto ou a produção cultural.