Impressiona como se desce tão baixo

António Santos

Lusa

Quatro mil metros. Impressiona-me a profundidade marítima a que já se consegue descer por 250 mil dólares. Mas a zona batipelágica do Atlântico, onde estão perdidos cinco milionários, não é nada comparada com as abissais profundezas a que já se consegue descer moralmente.

Cinco vidas humanas. Impressionam-me os titânicos esforços movidos para as salvar: uma complexa operação internacional de busca e salvamento que, só entre EUA e Canadá, mobiliza mais de uma centena de aviões, navios e submarinos; mais de mil socorristas, oceanógrafos, pilotos, generais, analistas, consultores, especialistas, contando até com a dedicação pessoal dos respectivos presidentes dos dois países norte-americanos. Na «Fortaleza Europa» com vista para o lago em que, só na última semana, se afogaram discretamente 500 pessoas, todos os noticiários abrem ansiosos: «corrida contra o tempo, cinco pessoas estão quase sem oxigénio!». Impressiona-me que estes cinco ricos aventureiros à procura da autêntica «experiência Titanic» a tenham conseguido encontrar no breu da «zona da meia-noite», assim chamada porque nem os raios de sol chegam tão baixo, mas 500 imigrantes, que só procuravam uma vida melhor, só tenham encontrado a morte, em plena luz do dia.

500 milhões de dólares. Impressiona-me a disponibilidade para gastar tantos milhões de dólares do erário público para, eventualmente, com sorte, salvar cinco milionários. Digo com sorte porque não se sabe onde estão estes milionários ou se estão ainda vivos; não são como oito milhões de crianças bem vivas, que sabemos muito bem onde é que estão, e que, segundo a ONU, morrerão este ano, nas profundezas do capitalismo abissopelágico, de fome ou vítimas de doenças facilmente tratáveis e evitáveis. Diz a ONU que com esses 500 milhões de dólares podíamos salvar a vida de quase 350 mil crianças não precisando de mais do que vacinas, medicamentos, esgotos, pão e água potável.

Impressiona-me, no fundo e mais que tudo, este humanismo selectivo que chama inevitável à fossa comum que nos divide entre muito ricos e muito pobres; entre extractores e consumidores; entre trabalhadores e exploradores; entre os que tudo têm e os que não têm nada; entre os que querem brincar aos submarinos em submersíveis capazes de resistir a pressões de 68 milhões de quilos e os que têm mesmo de cruzar o Mediterrâneo em barcos de borracha e se afundam e se afogam e se esquecem, nesta zona escura da História a que chamam capitalismo.

 



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