Orwelliano

Anabela Fino

«Prefiro ficar sem pátria do que ficar sem uma voz.» A afirmação é atribuída a Edward Snowden, o ex-administrador de sistemas da CIA e ex-contratado da Agência de Segurança Nacional norte-americana (NSA, na sigla inglesa), que há dez anos abalou a paz podre das chamadas democracias liberais ao divulgar detalhes de vários programas que constituem o sistema de vigilância global da NSA e a sistemática, ilegal e criminosa mega recolha de dados pessoais levada a cabo pela Agência.

«Não posso, em sã consciência, permitir que o governo dos EUA destrua a privacidade, a liberdade na Internet e as liberdades básicas das pessoas em todo o mundo com essa enorme máquina de vigilância que estão a construir secretamente», disse então Snowden, logo forçado ao exílio para escapar à prisão e refugiado desde então na Rússia, apesar das manifestas diferenças de opinião com as autoridades russas. Esquecido pela generalidade dos media, tal como Julian Assange, Snowden encarna o protótipo do mensageiro que (quase todos) querem eliminar.

Numa altura em que, sob pressão dos EUA, a Comissão Europeia decide forçar a exclusão das redes 5G das empresas de países fora da UE, da NATO ou da OCDE, e quando o respectivo governo «exerça controlo, interferência ou pressão sobre as suas actividades a operar em países terceiros», o expediente pouco subtil para afastar a concorrência da China no mercado «livre» só não é hilariante porque o que está em causa é demasiado grave.

Qual raposa no galinheiro, os EUA, que comprovadamente espiam todo o mundo, puseram em marcha mais uma campanha de manipulação da opinião pública para fazer crer que os seus interesses hegemónicos, políticos e económicos são os nossos interesses, por mais que isso nos venha a pesar no bolso. Portugal foi dos primeiros a aderir à exclusão da Huawei, evidentemente sem ceder a pressões, e só por mero acaso logo uma semana depois da vinda a Lisboa do secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, que reuniu com António Costa. No Expresso, Henrique Monteiro explicava, a 7 de Junho, que apesar de atrasado na disseminação das redes 5G, Portugal não podia querer recuperar do atraso pondo em causa a «soberania e a segurança do país e dos seus cidadãos, algo que a Huawei e a tecnologia chinesa não oferecem». Pois. De confiança são o Facebook, a Google, e outros gigantes norte-americanos. De confiança é a NSA, capaz, mesmo sem 5G, de pôr escutas em qualquer telemóvel no mundo, explorar jogos de computador para roubar dados pessoais, aceder ao e-mail de qualquer pessoa e ao histórico de navegação na Internet, penetrar remotamente em quase todos os computadores e quebrar a grande maioria dos sistemas de segurança.

(Dis)torcer a mensagem ou matar o mensageiro, eis a questão. Orwell não faria melhor.

 



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