Os milhões deles

João Frazão

Os números são o que são. Têm que ser lidos com cuidado porque podem esconder mais do que dizem, mas podem e devem ser usados para melhor compreender a realidade.

Esta semana tropeçámos com dois números que confirmam as desigualdades e as injustiças com que, crescentemente, estamos confrontados.

Por um lado, soubemos que a maior cadeia retalhista do mundo, a Inditex, dona da Zara e de um conjunto de outras marcas de venda de vestuário, teve lucros de quase 1,17 mil milhões de euros, apenas no primeiro trimestre, depois de ter vendido qualquer coisa como 7,6 mil milhões de euros, registando um crescimento de 54% relativamente ao ano anterior.

Com margens brutas de mais de 60%, a gigante espanhola aumentou os lucros em 54%. A continuar assim, e já anunciou que a colecção Primavera-Verão está a ser muito bem aceite, fechará o ano com quase 5 mil milhões de euros de lucros.

Por outro lado, uma pequena empresa nacional (muito pequena face à Inditex), com apenas 45 trabalhadores, assegurou vendas de 18 milhões de euros, no ano passado, e quer chegar a 25 milhões a breve prazo.

Ora, admitindo que todos os trabalhadores da Mi casa es tu casa estariam afectos à produção, isso significaria que cada um garante à empresa uma facturação de 400 mil euros. Entretanto, cada trabalhador destes custa à empresa menos de 4% desse valor e leva para casa ainda menos.

O que estas empresas, na diferença da sua dimensão, têm em comum é que, em tempos que dizem que são de crise, vivem à larga enquanto os trabalhadores se confrontam com dificuldades cada vez maiores.

A grande diferença é que a Inditex, para além dos seus trabalhadores, explora ainda os de centenas de empresas que para ela trabalham a feitio, no Norte de Portugal, e cujos empresários não param de se queixar dos preços esmagados que aquele grupo lhes impõe.

Tudo o resto funciona na mesma lógica da exploração. São sempre os trabalhadores a criar a riqueza e uns poucos a apropriarem-se dela. E depois venham cá dizer que os salários e a legislação laboral em Portugal são impedimento ao crescimento das empresas.

 



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