O Estado, reduzido à violência

António Santos

A ópera bufa do tecto da dívida estado-unidense teve o desfecho esperado: à última hora, Republicanos e Democratas concordaram que a única forma de permitir que o governo federal continue a pedir dinheiro emprestado é sacrificando os direitos dos trabalhadores.

O acordo bipartidário prevê cortes nos orçamentos de todas as agências federais com a excepção das que fazem a guerra e a repressão. À medida que o Estado capitalista se reduz à sua essência — a organização da violência e da repressão em que se sustenta a ditadura da classe dominante — torna-se claro que todas as suas outras funções sociais, económicas, técnicas, culturais, fiscal e científicas são dispensáveis. Perdido por cem, perdido por mil: indispensável é manter a supremacia militar para preservar uma hegemonia global cada vez menos sustentada na supremacia económica, financeira, política, científica ou cultural.

Para facilitar a vida aos bilionários, sofrem cortes de 20 mil milhões de dólares os serviços tributários federais responsáveis por deslindar esquemas de evasão fiscal cada vez mais sofisticados. Em sentido inverso, aumenta-se a burocracia exigida aos beneficiários do programa de ajuda alimentar, de que dependem quase 26 milhões de pessoas para pôr comida na mesa.

O único Departamento da Casa Branca que não emagrece é, naturalmente, o da Defesa, cuja dotação financeira aumentará seis por cento nos próximos dois anos para o recorde absoluto de 1 bilião de dólares, qualquer coisa como quatro vezes o PIB português e quase tanto como a insofismável quantia de 1,5 biliões de dólares que, segundo o estudo do Gabinete Orçamental do Congresso, o governo federal planeia retirar, ao longo da próxima década, à segurança social, à educação, à habitação social e aos escombros remanescentes de saúde pública no país norte-americano.

No capitalismo nu sobrará um único direito, quando até o direito à vida for esmagado pela pressão atmosférica do tecto da dívida: o direito à propriedade privada com direito a toda a violência necessária para a guardar.

 



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