A cidade de Artyom

Manuel Gouveia

A Cidade do Donbass onde se têm centrado as atenções nos últimos meses, Artemovsk, recebeu o seu nome em 1924, como forma de homenagear o camarada Artyom (ou Artem, em ucraniano), dirigente bolchevique do Donbass, que depois de uma vida de luta pela emancipação dos trabalhadores morreria em 1921 num acidente. Também em Donetsk se pode encontrar uma estátua que honra a memória de Artyom.

Artemovsk não é «o nome russo» desta cidade, como tantas vezes ouvimos dizer. É o nome ucraniano em russo, que é coisa bem diferente. O nome ucraniano em ucraniano é Artemivsk. Outra coisa é recordar que até 1924 esta cidade se chamava, em russo e em ucraniano, Bakmuth, e que assim lhe chamaram igualmente as autoridades nazis durante a breve (mas dolorosa) ocupação da Ucrânia em 1942 e 1943, e assim lhe chamam aqueles que tomaram o poder na Ucrânia após o golpe de 2014.

É perfeitamente normal que o restaurado poder da burguesia sobre as terras soviéticas queira apagar da toponímia os nomes daqueles que viveram e morreram pelo poder dos trabalhadores. Esse poder burguês, enfeudado ao imperialismo norte-americano, que está a destruir a Ucrânia e quase destruiu a Rússia, tem um ódio justo àqueles que demonstraram à Humanidade que é possível construir uma sociedade livre de exploradores.

Esse processo foi suspenso na Rússia quando se tornou claro – até para sectores da grande burguesia – que o caminho apontado e trilhado por Ieltsin era o caminho da destruição do Estado Russo, da sua completa submissão neocolonial aos EUA. Quando se tornou necessário, para esse poder burguês, reconstruir o orgulho nacional, reforçar a unidade nacional, cimentar o Estado federal, houve que saber trazer para dentro desse Estado as extraordinárias conquistas e avanços do período soviético.

Mas não tenhamos quaisquer ilusões: o Estado que o camarada Artyom ajudou a implantar não existe mais. A reconstrução do poder dos trabalhadores, nas terras que já foram soviéticas, e a sua conquista em todo o mundo, é tarefa – cada vez mais urgente – das actuais gerações. Sabendo unir as tarefas da emancipação nacional e da emancipação da classe.




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