A roda deu a volta
Kirk
São apresentadas como o pináculo da mais alta tecnologia as baby boxes que, do Kentucky ao Indiana, da Florida ao Ohio, da costa atlântica à do Pacífico se multiplicam pelos EUA. São já 142 as cidades que inauguraram as moderníssimas «caixas de bebés», mas a Safe Haven Baby Boxes (SHBB), a empresa que detém o monopólio do negócio do abandono de bebés, prevê que este número possa duplicar até ao final do ano.
O que é, portanto, uma baby box? É a roda dos enjeitados do século XXI: uma caixa a que se acede a partir da rua por uma gaveta instalada na parede de um edifício, permitindo que qualquer pessoa possa abandonar um bebé em condições de total anonimato. A velha roda medieval, em Portugal proibida no último quartel do século XIX, regressa aos EUA no primeiro quartel séc do séc XXI, mas com mais fios eléctricos: a baby box está equipada com um sistema de climatização, sensores de peso, batimento cardíaco e movimento, bem como com alarmes vários que avisam as respectivas autoridades quando alguém abre a gaveta, quando um bebé é deixado ou quando um bebé é retirado. Patente registada da SHBB, naturalmente.
Talvez não seja apenas coincidência nem somente fanatismo dar-se o facto de ser a dona da SHBB, Monica Kelsey, uma fervorosa militante anti-aborto. Desde que o Supremo Tribunal destruiu a protecção federal à interrupção voluntária da gravidez, em Outubro de 2022, o número de «caixas de bebés» triplicou.
Embora as baby boxes sejam promovidas como formas de evitar o infantícidio, constituem na realidade a mais explícita forma de legitimar o abandono de bebés: é o Estado, o Estado mais rico do planeta, no quadro jurídico que sustenta estas caixas e nos edifícios das instituições públicas que as acolhem que, deste modo, admite que não tem melhor solução para os dramas do que geram o abandono do que garantir o anonimato das mães que vão deixar os seus recém-nascidos na roda.
Ao repetir tragédias e farsas, o capitalismo regressa às suas raízes de miséria, violência e desespero. É da sua natureza: o que foi novo volta a ser velho; ao que era velho chama-se novo; o que se julgava ultrapassado volta à ordem do dia; o que se considerava garantido dissolve-se no ar e a crise cíclica revela-se espiral. Até pode parecer que está a avançar, porque até há mais fios eléctricos, mas o movimento é o mesmo da roda.