Congresso de 1973 evocado em Aveiro como passo para Abril e exemplo actual
Para assinalar os 50 anos do 3.º Congresso da Oposição Democrática, a URAP realizou, no passado sábado, em Aveiro, com grande participação, uma sessão e uma romagem, e anunciou outras iniciativas.
Erguiam-se ali as bases para a edificação de um Portugal livre e democrático
O Congresso, realizado entre 4 e 8 de Abril de 1973, «pela larga unidade democrática alcançada, pelo avançado conteúdo das muitas teses apresentadas, pela discussão e pelas suas conclusões, permitiu um considerável avanço na luta rumo ao 25 de Abril», assinalou José Pedro Soares, que tomou a palavra como ex-preso político e coordenador nacional da direcção da União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP).
Sublinhou ainda que o 3.º Congresso «contribuiu para agravar a crise geral do fascismo e alargar a actividade da oposição, reforçando a confiança na luta que se desenvolvia em múltiplas frentes», «pelo grande envolvimento e participação de democratas de todo o País, pela abrangência dos assuntos discutidos, pelas suas claras conclusões, contra o poder dos monopólios e dos latifundiários, contra a guerra colonial e o colonialismo».
Património e actualidade
A sessão evocativa teve lugar, desde um pouco depois das 14h30, no auditório maior do Centro de Congressos de Aveiro. Durante cerca de hora e meia, mais de oito centenas de participantes (sendo de assinalar uma grande participação juvenil) ouviram e aplaudiram as seis intervenções proferidas por Alberto Arons de Carvalho, Ana Sofia Ferreira, Carla Sousa, Jaime Machado (que leu a mensagem de António Neto Brandão), José Pedro Soares e Simões Teles.
A abrir os trabalhos, Vítor Dias (que dirigiu a sessão) assinalou que o 3.º Congresso foi «inseparável de um vasto e rico património de análises e iniciativas, lutas e avanços, de forças, correntes e personalidades democráticas». Membro do Conselho Nacional da URAP e participante no Congresso de 1973, observou ter este evidenciado que «o movimento antifascista já dispunha de milhares de activistas», «dotados de uma profunda consciência política» e que teriam «um importante papel nos primeiros meses a seguir ao 25 de Abril» de 1974.
A organização do Congresso foi feita «sem alardes, superando, por vezes de forma estóica, dificuldades e limitações», «na convicção serena de que se estava paulatinamente a constituir as bases para a edificação de um Portugal livre e democrático», recordou António Neto Brandão. Este membro da Comissão Executiva do 3.º Congresso (único ainda entre nós, dos nove que a integraram), numa mensagem lida por Jaime Machado, do núcleo local de Aveiro e do Conselho Nacional da URAP, fez questão de afirmar que o Congresso nunca obteria «a projecção nacional e internacional, que veio a alcançar, e a mobilização de milhares de portugueses, convocando-os para a luta política, sem a participação empenhada e activa de muitos militantes do Partido Comunista Português».
Na sessão estiveram presentes delegações do PCP e do PS e representantes da Câmara Municipal e Assembleia Municipal de Aveiro. Estiveram ainda presentes, para além de militantes comunistas e socialistas, muitos outros democratas e pessoas de outras áreas de intervenção política, sindical e cultural.
A delegação do Partido foi constituída por Francisco Lopes, José Capucho, Alexandre Araújo e Octávio Augusto, membros dos organismos executivos do Comité Central, Luísa Araújo, da Comissão Central de Controlo, e Mafalda Guerreiro, membro do Comité Central e responsável pela Organização Regional de Aveiro do PCP.
Foi posto à venda, no átrio do auditório, juntamente com outras edições da URAP, o livro «A Caminho do 25 de Abril – 50 anos do 3.º Congresso da Oposição Democrática».
Pouco depois das 16 horas, iniciou-se um desfile até ao cemitério central de Aveiro, passando pelo antigo Cine-Teatro Avenida (local do 3.º Congresso).
Realizou-se assim «a romagem que há 50 anos o fascismo reprimiu e impediu», como afirmou José Pedro Soares. «Regressamos hoje a este espaço de silêncio e memória para homenagear alguns democratas aveirenses, companheiros destacados de décadas da resistência e luta antifascista», disse, numa breve intervenção, já depois de dirigentes da URAP terem depositado flores nas campas de Álvaro de Seiça Neves, António Regala, João Sarabando, Manuel de Andrade, Flávio Sardo e Mário Sacramento.
A este, que no seu testamento apelou «Façam o mundo melhor, ouviram? Não me obriguem a voltar cá!», o dirigente da URAP «contou» como «nunca desistimos», «até que o tal dia chegou», enaltecendo «os avanços realizados, o muito que se conquistou com o 25 de Abril, conquistas que agora nos apelam, para serem exercidas e defendidas».
Ausência e silêncio
No final da intervenção de Ana Sofia Ferreira, ouviu-se do público um grito de interrogação e protesto: «Onde está a televisão?»
«Tem toda a razão», foi o comentário pronto do comandante Simões Teles, antes de iniciar o seu discurso.
Numa cadeira próxima alguém comentou: «Pois é. Em 1973 o Congresso também não passou na televisão».
Nos jornais diários nacionais, o acto público de dia 1 foi igualmente ignorado.
Afirmações da tribuna
«Estas nossas dificuldades e problemas não são fruto de Abril, mas culpa dos seus inimigos e das suas políticas.»
– Carla Sousa, jovem trabalhadora e sindicalista
Além de «homenagear a coragem daqueles que o [Congresso] organizaram e nele intervieram», devemos «avaliar e destacar o acerto com que ele foi politicamente organizado e realizado».
– Alberto Arons de Carvalho, congressista em 1973
Estiveram no Congresso «de forma muito discreta, mais de uma dezena de oficiais e cadetes das Forças Armadas» e várias das suas conclusões ficarão «plasmadas no Programa do MFA».
– Ana Sofia Ferreira, historiadora, professora na Faculdade de Letras do Porto
«O 3.º Congresso foi revolucionário» e «o seu estudo há-de poder ajudar-nos a ganhar a confiança e a abertura de espírito necessárias para se ultrapassar as muitas dificuldades com que nos deparamos».
– Comandante Simões Teles, militar de Abril, que participou no III Congresso da Oposição Democrática.