Cooperação vs. ingerência
Os meios de informação dominantes têm dedicado grande atenção à visita da vice-presidente dos Estados Unidos da América a África e à chamada Cimeira pela Democracia, ambas promovidas pela Casa Branca.
Kamala Harris começou o seu périplo pelo Gana, onde prometeu uma nova era de investimentos privados norte-americanos no continente. Curiosamente, como bem evoca outra imprensa, esta não sujeita aos ditames de Washington, o Gana é a terra de Kwame Nkrumah, construtor da independência e seu primeiro presidente, que foi derrubado em 1966 por um golpe de Estado patrocinado pela CIA e cujo objectivo foi devolver ao sector privado as empresas nacionalizadas…
A Tanzânia, de Julius Nyerere, e a Zâmbia, de Kenneth Kaunda, que fizeram parte da linha da frente do combate contra o apartheid e o racismo na África Austral, foram as outras paragens de Kamala Harris. Os propósitos não são escondidos: minar os laços de amizade e cooperação da China e da Rússia com os países africanos, muitos deles mantendo relações com Moscovo e Pequim desde as lutas de libertação nacional, num tempo em que os EUA apoiavam nos planos político, diplomático, económico e militar as potências colonialistas europeias.
A viagem da vice-presidente norte-americana foi precedida pelas visitas de outros representantes de Washington, desde o secretário de Estado Antony Blinken até à primeira-dama Jill Biden, sempre com o mesmo fim: travar a influência «maligna» russa e chinesa em África – como se os africanos não soubessem livremente escolher amigos e parceiros.
De igual modo, a denominada II Cimeira pela Democracia, patrocinada por Washington e que tem lugar em formato virtual e presencial, faz parte da campanha mediática travada pelos EUA contra a China e a Rússia.
A Casa Branca reparte o papel de anfitrião com a Costa Rica, Países Baixos, Coreia do Sul e Zâmbia e espera que não se repitam as críticas feitas à primeira edição – considerada um fracasso –, em finais de 2021, quando os EUA foram acusados de pretender dar lições de «democracia saudável» a todo o mundo. Na altura, um congressista republicano, Ron Paul, disse que o seu país se dedica a «socavar a democracia no estrangeiro, não a promovê-la».
Nesta lógica imperial, outros acontecimentos relacionados com África, bem mais importantes, não merecem a atenção do sistema mediático «ocidental», que procura até ocultá-los.
É disso exemplo a II Conferência Parlamentar Internacional «Rússia-África num mundo multipolar», realizada a 19 e 20 deste mês, em Moscovo, na presença de mais de 40 delegações africanas.
Na reunião, o presidente Vladimir Putin realçou o interesse dos povos de África em intensificar as «relações integrais e mutuamente vantajosas» com Moscovo e assegurou que a Rússia apoia a cooperação estratégica e a criação de uma agenda global com os países africanos.
Salientando que a Rússia e os Estados da África rejeitam «a ideologia neocolonial imposta a partir de fora», Putin anunciou o perdão da dívida de mais de 20 mil milhões de dólares aos países africanos. Revelou que o volume das trocas comerciais entre as duas partes cresce e apontou perspectivas de desenvolvimento de projectos em múltiplas áreas. E garantiu que a Rússia continuará a cumprir todas as suas obrigações com os países africanos no fornecimento de alimentos, fertilizantes, combustíveis e outros produtos críticos.