Desejos
Nos últimos meses têm-se multiplicado aquilo a que alguns chamam de «peças jornalísticas» em torno de Passos Coelho. Na edição de 23 de Fevereiro, a revista Sábado dedica meia dúzia de páginas a esta figura mor da direita portuguesa colocando na capa este título: «A nova vida de Passos Coelho, o desejado.» A revista Visão não lhe ficou atrás e na sua edição do último 9 de Março volta à carga com este mimo também na capa: «A nova vida de Passos Coelho, o desejado.» Estes exemplos são apenas uma curta amostra da proliferação de «notícias», comentários e entrevistas, que vão sendo cirurgicamente plantadas e que, em regra, fazem uma espécie de beatificação do homem que conduziu o último governo PSD/CDS e concretizou o Pacto de Agressão das troikas (a estrangeira e a nacional).
Estamos perante um exemplo claro da tentativa de transformar opinião publicada em opinião pública, branqueando as pesadas responsabilidades deste cavalheiro naquele que foi o mais negro período da vida nacional desde o fascismo, por outro, criando lastro para cavalgadas futuras num ambiente geral de promoção de forças e projectos reaccionários. Claro está que, para a actual liderança do PSD, esta promoção poderá não ser cómoda. Mas para os interesses do grande capital, Rio, Montenegro ou Passos, são peões ao serviço dos seus interesses. Esta promoção interessará também ao PS. Seja porque fragiliza conjunturalmente o PSD, seja porque lhe facilitará sempre o antagonismo com quem protagonizou a tal política de terra queimada.
Na verdade quem «deseja» Passos Coelho, não são, não podem ser os trabalhadores e reformados, que viram os seus salários e pensões drasticamente cortados, nem os milhares de jovens que foram forçados a emigrar, nem o povo em geral que sentiu uma brutal regressão nas suas condições de vida.
Num momento em que se aprofunda novamente a política de direita, desta feita pela mão do Governo PS, com uma acelerada degradação da situação económica e social que contrasta com os lucros escandalosos dos grupos económicos, os desejos do grande capital vão sendo expressos também em torno dos protagonistas que melhor assegurem a sua política de exploração e empobrecimento. Estejamos atentos.