De baraço ao pescoço

Não se desse o caso de em nada haver de parecenças entre personagens que a seguir se citarão e Alice, a menina da obra de Lewis Carroll, não soubéssemos nós onde e como se vive nesta terra em que estamos, e julgar-nos-íamos no País das Maravilhas. Ainda que, em boa verdade, se levarmos em conta que na história agora invocada por lá andam criaturas peculiares, movidas por uma lógica absurda mais característica de um mundo de sonhos do que da vida terrena, se deva concluir que a analogia não será de todo refutável.

Vem isto a propósito da empolgada narração do ministro das Finanças da torrente de «sucessos» que inundam o País, seja o que designa de «redução histórica» da dívida, do «notável» excedente orçamental no primeiro mês do ano, a invocação da redução de uma inflação que esbarra no aumento incessante dos preços, ou ainda do valor do PIB de 2022, ainda que em desaceleração e a caminho, se não da estagnação, de um crescimento inexpressivo. Para o Governo a vida do País e do povo não conhece outros horizontes que não o das estatísticas e metas impostas a partir dos dogmas da União Europeia e dos interesses de classe que a comanda.

Aí está de volta, dez anos depois, agora pelo PS, a tese de Montenegro e do PSD segundo a qual «o País está melhor» a vida do povo é que está um inferno. Sabemos que, em socorro de uns e outros, aí teremos os «economistas» de serviço à política de direita a desfiar argumentos de que «Roma e Pavia não se fizeram num dia», «não se pode querer tudo de uma vez», ou ainda um mais rústico «não há sol na eira e chuva no nabal», que é como quem diz para uns incharem de lucros outros terão de ver ressequir os seus salários e pensões.

Donde não surpreende que na embalagem deste pensar se multipliquem por aí quem, pendurado numa banca de alforge pejado de lucros, confirme o paraíso, seja pela constatação do número daqueles que ainda janta fora à sexta-feira ou da cínica divulgação da expressão residual dos que vão de baraço ao pescoço pedir a renegociação do crédito à habitação, como se não soubessem que essa será a última e derradeira despesa que cada família cortará.




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