Não gostam mas ajudam, objectivamente

Filipe Diniz

Augusto Santos Silva (ASS) publica um pomposo escrito sobre «remédios contra o avanço da extrema-direita» (Público, 5.02.2023). Atesta sobretudo a incapacidade da social-democracia de direita em lidar com o problema. Falando claro, com o fascismo.

Sendo alheio à análise marxista da questão, até com não-marxistas podia ter aprendido. Por exemplo, com um texto de 1995 de Umberto Eco, sobre o que chamou Ur-Fascism, «fascismo eterno». Reflecte sobre traços culturais e sócioculturais comuns, e o mal-estar do qual o fascismo procura tirar proveito e mobilização. Diz: o Ur-Fascismo «deriva da frustração individual ou social. Apela a uma classe média frustrada, sofrendo de crise económica ou de sentimento de humilhação política». Claro que ASS não poderia vislumbrar tal coisa, defensor que é das políticas do seu governo e da UE, do autoritarismo de instituições políticas não eleitas (como os órgãos da burocracia de Bruxelas) ou que são eleitas com promessas que não cumprem.

Diz Eco: «a raiz da psicologia Ur-Fascista está na obsessão com uma conspiração, possivelmente uma conspiração internacional. Os seguidores devem sentir-se acossados. A forma mais fácil de resolver a conspiração é o apelo à xenofobia.» ASS acha mal o racismo bruto do Chega mas alinha – com todo o bloco «atlantista» em que se insere – no quotidiano massacre mediático em torno dos acontecimentos na Ucrânia, cujas linhas são, sem tirar nem por, as que Eco descreve.

Ainda Eco: «[para o Ur-Fascista] o pacifismo é traficar com o inimigo.» E em alguns dos actuais heróis de ASS assenta como uma luva outra afirmação de Eco: «o herói Ur-Fascista está impaciente por morrer. Na sua impaciência, é mais frequente enviar outros para a morte.»

Uma última advertência de Eco: «o Ur-Fascismo permanece à nossa volta, […] pode regressar sob o mais inocente dos disfarces.»




Mais artigos de: Opinião

Farinha não faz bolacha!

O que levaria dezenas de trabalhadores a gritar, à porta de uma empresa de produtos alimentares, a inusitada palavra de ordem «Farinha não faz bolacha»? O dia limpo e prazenteiro ajudou os que se juntaram à porta da Cerealto, recusando a imposição de aumentos salariais de 4% e exigindo salários dignos. Ânimo,...

Duas questões que importam

Falemos de duas questões actuais que tocam profundamente a Igreja Católica e «mexem» com as convicções religiosas que atravessam a sociedade, em múltiplas e contraditórias componentes, de classe e políticas, e que exigem da nossa parte uma abordagem cuidada, nem superficial nem de sensacionalismo mediático, orientada por...

Olh’ó balão

Deu que falar o abate de um balão chinês por um avião militar norte-americano. As autoridades chinesas garantem que se tratava de um aparelho meteorológico; os EUA falam em espionagem, elevando a tensão… Segundo David Vine, professor na Universidade Americana de Washington, em Julho de 2021 os EUA tinham cerca de 750...

C4 no Báltico, bem-vindos ao mundo baseado em regras

Não é surpreendente a revelação de Seymour Hersh da autoria dos EUA das explosões dos gasodutos Nord Stream entre a Rússia e a Alemanha através do mar Báltico. A resposta à primordial pergunta, a quem serviu o crime, foi sempre clara: Washington foi o grande beneficiário e a Casa Branca nunca o escondeu. Os EUA fizeram...

Tomar a iniciativa em Évora pelo direito à Saúde

A realidade de prestação de cuidados de saúde no distrito de Évora não é diferente de outros territórios. As carências e estrangulamentos são dados objectivos num território com 14 concelhos, profundamente envelhecido, com fracas condições de mobilidade entre concelhos e entre freguesias. Tudo...