Não gostam mas ajudam, objectivamente
Augusto Santos Silva (ASS) publica um pomposo escrito sobre «remédios contra o avanço da extrema-direita» (Público, 5.02.2023). Atesta sobretudo a incapacidade da social-democracia de direita em lidar com o problema. Falando claro, com o fascismo.
Sendo alheio à análise marxista da questão, até com não-marxistas podia ter aprendido. Por exemplo, com um texto de 1995 de Umberto Eco, sobre o que chamou Ur-Fascism, «fascismo eterno». Reflecte sobre traços culturais e sócioculturais comuns, e o mal-estar do qual o fascismo procura tirar proveito e mobilização. Diz: o Ur-Fascismo «deriva da frustração individual ou social. Apela a uma classe média frustrada, sofrendo de crise económica ou de sentimento de humilhação política». Claro que ASS não poderia vislumbrar tal coisa, defensor que é das políticas do seu governo e da UE, do autoritarismo de instituições políticas não eleitas (como os órgãos da burocracia de Bruxelas) ou que são eleitas com promessas que não cumprem.
Diz Eco: «a raiz da psicologia Ur-Fascista está na obsessão com uma conspiração, possivelmente uma conspiração internacional. Os seguidores devem sentir-se acossados. A forma mais fácil de resolver a conspiração é o apelo à xenofobia.» ASS acha mal o racismo bruto do Chega mas alinha – com todo o bloco «atlantista» em que se insere – no quotidiano massacre mediático em torno dos acontecimentos na Ucrânia, cujas linhas são, sem tirar nem por, as que Eco descreve.
Ainda Eco: «[para o Ur-Fascista] o pacifismo é traficar com o inimigo.» E em alguns dos actuais heróis de ASS assenta como uma luva outra afirmação de Eco: «o herói Ur-Fascista está impaciente por morrer. Na sua impaciência, é mais frequente enviar outros para a morte.»
Uma última advertência de Eco: «o Ur-Fascismo permanece à nossa volta, […] pode regressar sob o mais inocente dos disfarces.»