Mil milhões de euros

Manuel Gouveia

Nós estamos habituados a viver num mundo onde, no que toca a dinheiro, mil euros é a nossa última verdadeira escala mensurável. O nosso salário é um pouco menos ou um pouco mais que mil euros. A nossa casa custa 100 ou 150 mil euros. Um carro custa 9 ou 12 mil euros. Há quem viva noutro mundo, o do milhão de euros, onde tudo se mede nessa escala (assim se medem os rendimentos dos gestores das empresas capitalistas e as casas dos vistos gold). Mas há pessoas, entidades, classes, que já se colocaram a operar noutra escala: o milhar de milhões de euros. O País gasta 1,4 mil milhões por ano com PPP, o lucro da Galp será quase mil milhões, tímido perante os lucros já amassados no terceiro trimestre pelas petrolíferas: Aramco (42,4), ExxonMobil (19,7), Chevron (11,2) ou BP (8,2).

Na nossa escala, temos até dificuldade de visualizar estes volumes de dinheiro. Afinal, mil milhões de euros são um monte de notas de 20 euros com cinco quilómetros de altura, ou um campo de futebol cheio de notas de 20 euros até quase à altura de um metro. Se uma pessoa guardar numa caixa hipotética uma nota de 20 euros a cada segundo, um ano depois, mesmo não dormindo, e não fazendo nada mais a não ser guardar uma nota de 20 euros a cada segundo, ainda só teria conseguido guardar pouco mais de metade de um milhar de milhões de euros.

É aliás por isso mesmo que esse tipo de valores só podem ser sociais. É preciso um milhão de homens para que mil milhões de euros faça algum sentido. Nessa escala podemos representar o PIB de um país (230 no caso português), o volume de negócios de uma empresa com um milhão de clientes, o custo de uma obra envolvendo centenas de milhar de trabalhadores em toda a cadeia. E quando o usamos para nos referirmos à fortuna pessoal de uma pessoa ou ao lucro de um pequeno conjunto de accionistas, ele é também e sempre um valor social: o valor da apropriação da mais-valia gerada por milhões de trabalhadores.




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