Licença para matar
A repercussão internacional que teve o assassinato de George Floyd, em 2020, testemunha o poder das redes sociais e, simultaneamente, a sua efemeridade. A indignação gerada pelas imagens da bestialidade policial deram a volta ao mundo, alimentaram genuínas indignações, mobilizaram protestos e obrigaram instituições e media do capital a vir a público reconhecer que o racismo e a violência policial são um problema por resolver nos EUA.
Dois anos depois o assunto saiu da agenda, criando a ilusão de que o problema estará, se não resolvido, pelo menos mitigado. Nada mais enganador.
Um relatório preliminar do Mapping Police Violence dá conta de que a polícia norte-americana matou 1176 pessoas em 2022, o maior número de assassinatos num só ano desde que há registos destes dados, há uma década. Segundo a mesma fonte, houve apenas 12 dias, o ano passado, em que a polícia não fez vítimas mortais. Contas feitas, chega-se à macabra média de três mortos por dia, quase 100 assassinados por mês, mais 31 vítimas do que em 2021, ano em que o balanço foi de 1145 pessoas assassinadas.
O fenómeno não é novo nem ocorre em cenários de crime violento. Os dados mostram que desde 2013 o número e vítimas às mãos da polícia foi sempre superior a 1000, e apenas 31% das pessoas mortas estavam numa situação ligada a eventual crime.
Sem surpresa, constata-se que os afro-americanos estão mais sujeitos a ser alvo da violência policial: uma em cada quatro pessoas mortas é negra, embora os negros apenas representem 13% da população dos EUA. Também sem surpresa, os dados mostram que a impunidade impera: entre 2013 e 2022, mais de 98 por cento dos assassinatos cometidos pela polícia não tiveram consequências para os agentes implicados. É a democracia à americana.