Ana de todos nós
No Centro de Detenção Psiquiátrica de Fort Wort, no Texas, há dezenas de milhares de cartas que, malgrado abertas, nunca chegaram à destinatária: uma mulher desconhecida de tantos e tão persistentes remetentes cujas moradas cobrem praticamente todos os países do mundo. Durante 21 anos, nunca pararam de escrever-lhe, mesmo sabendo que nenhuma carta chegaria. Mas, desde sexta-feira, não chegarão novas cartas para a ex-presa política Ana Belén Montes. A heroína da humanidade já não mora lá.
Condenada a 25 anos de prisão por espionagem, um crime punido com pena de morte, Ana Belén Montes arriscou a vida e salvou a consciência. Durante 16 anos, a então alta funcionária da Agência de Inteligência de Defesa dos EUA, uma agente premiada da CIA, manteve o governo cubano informado sobre todos os planos secretos de ingerência imperialista contra a ilha, pelos quais era responsável, evitando inúmeros atentados terroristas e salvando muitas mais vidas.
Quando foi detida, perante o tribunal estado-unidense que a devia condenar à morte, Ana Belén disse «Desenvolvi a actividade que me traz diante de vós porque obedeci à minha consciência e não à lei. Acredito que a política do nosso governo em relação a Cuba é cruel, injusta e profundamente hostil, pelo que me senti moralmente obrigada a ajudar a ilha a defender-se dos nossos esforços para lhe impor os nossos valores e o nosso sistema político».
Ana Belén nunca pediu nem recebeu um cêntimo do governo cubano, mas, já presa, teria recebido muitas cartas cubanas, se o governo dos EUA lhe permitisse ter correspondência. Em vez da cadeira eléctrica ou da injeção letal, Ana Belén foi condenada a apodrecer e a enlouquecer num regime de isolamento quase total: 21 anos sem cartas, sem visitas, sem chamadas telefónicas, sem computador, 15 dos quais passados num hospital psiquiátrico, muito embora a única doença de Ana seja um cancro da mama que está a combater com quimioterapia.
Para a libertação da presa política porto-riquenha contribuiu decisivamente a intensa campanha de solidariedade internacional da ProLibertad e da Mesa de Trabalho por Ana Belén Montes, em que se insere o gigantesco caudal de cartas agora terminado. Mesmo em liberdade, a campanha solidária continua sob o lema de «Ana Belén é nossa!» para ajudar a heroína a reintegrar-se na sociedade porto-riquenha
Numa curta declaração após a libertação, Ana Belén Montes pediu a todos privacidade e tranquilidade: «Convido todos os que desejam focar-se em mim a que se foquem em temas mais importantes, como os sérios problemas que enfrenta o povo porto-riquenho ou o bloqueio dos EUA contra Cuba. Quem é que, nos últimos 60 anos, perguntou ao povo cubano se quer que os EUA lhe imponha este bloqueio asfixiante? (…) Eu, como pessoa, sou irrelevante. Não tenho importância». Assim fala um exemplo vivo de coragem, dignidade e liberdade.