Janeiro de 1923

Filipe Diniz

Eu­génio de An­drade nasceu em 19 de Ja­neiro de 1923. Um muito im­por­tante cen­te­nário a ce­le­brar.

Al­guns dias antes, nesse mesmo mês, morria Ja­roslav Hazek, o autor de O bom sol­dado Schweik. Acon­tece que, para além do génio li­te­rário, ambos ti­veram em comum a aversão ao mi­li­ta­rismo – em con­textos his­tó­ricos evi­den­te­mente muito di­fe­rentes. Eu­génio de An­drade, se de­tes­tava o fun­ci­o­na­mento da ins­ti­tuição mi­litar e a men­ta­li­dade que lhe atri­buía, re­co­nhece o cré­dito que cabe ao MFA — «O 25 de Abril foi acção de mi­li­tares, isso não pode ser es­que­cido nem di­mi­nuído: além de in­justo, seria grave.» Aponta, to­davia, o papel das Forças Ar­madas en­quanto su­porte do re­gime fas­cista e na guerra co­lo­nial.

Tes­te­mu­nham a de­vas­tação da guerra. Em­bora Hazek opte pelo humor e a sá­tira, não omite o horror: «Um pro­jéctil, que não tinha ex­plo­dido, atin­gira um velho pi­nheiro junto da an­tiga es­tação de ca­minho de ferro, da qual apenas res­tava um monte de ruínas. Por toda a parte havia frag­mentos de pro­jéc­teis es­pa­lhados, e era evi­dente que ca­dá­veres de sol­dados ti­nham sido en­ter­rados na pro­xi­mi­dade, porque existia um hor­rível fedor a pu­tre­facção. E em todos os lados es­tavam pe­daços de ex­cre­mento hu­mano ema­nando de todas as na­ções da Áus­tria, Ale­manha e Rússia.»

A de­mo­li­dora ironia de Hazek de­nuncia, em torno da sua casta mi­litar, o es­tertor da classe do­mi­nante no de­ca­dente im­pério austro-hún­garo. Antes anar­quista e anti-bol­che­vique, adere em 1918 ao so­ci­a­lismo, par­ti­cipa na guerra civil russa nas fi­leiras do Exér­cito Ver­melho. É membro do so­viete de Ir­kutsk. Os mi­li­tares ao lado dos quais com­bate são ou­tros, têm outra origem, batem-se por uma causa em que se re­co­nhece.

Um e outro par­ti­lham a busca da me­lhor hu­ma­ni­dade entre aquilo que de pior o seu tempo lhes pro­por­ci­onou. É também assim que os de­vemos lem­brar, cem anos de­pois.




Mais artigos de: Opinião

Mísero contentamento

Há quem se contente com pouco e proclame a felicidade que o inunde por dá cá aquela palha. Não em tom de rábula, como Herman e Breyner imortalizaram por via do senhor Feliz e do senhor Contente, mas na versão de propaganda europeísta que levou Lagarde a anunciar essa boa nova de ter a Croácia no que designa de «família...

Um ano depois da chantagem

Há um ano o País entrava na fase derradeira da campanha eleitoral para a Assembleia da República. As eleições tinham sido precipitadas no seguimento da rejeição da proposta de Orçamento do Estado para 2022, numa acção convergente entre o Governo do PS, ávido de se libertar dos condicionamentos que ainda restavam da...

Garantia

A Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução, a 30 de Dezembro, solicitando ao Tribunal Penal Internacional (TPI) um parecer consultivo sobre as «consequências legais decorrentes da violação contínua por Israel do direito do povo palestiniano à autodeterminação, da ocupação prolongada, colonização e anexação do...

Um Ano Novo melhor: sim, é possível!

Fazer das injustiças força para lutar – eis a mais mais sólida garantia de que não cairão em saco roto os votos de um Ano Novo melhor. No ano que terminou, a alteração na correlação de forças no plano político fez engrossar o caudal da política de direita e cavou mais fundas injustiças na...

Depois da URSS…

Uma sondagem revelou que 58% dos russos lamentam o fim da União Soviética. Os dados do centro russo de Opinião Pública, VSIOM, foram divulgados no dia 30 de Dezembro em que se assinalou o centenário da fundação da URSS. Apesar dos 31 anos decorridos da sua dissolução, e da ideologia dominante adversa ao socialismo, a...