Janeiro de 1923
Eugénio de Andrade nasceu em 19 de Janeiro de 1923. Um muito importante centenário a celebrar.
Alguns dias antes, nesse mesmo mês, morria Jaroslav Hazek, o autor de O bom soldado Schweik. Acontece que, para além do génio literário, ambos tiveram em comum a aversão ao militarismo – em contextos históricos evidentemente muito diferentes. Eugénio de Andrade, se detestava o funcionamento da instituição militar e a mentalidade que lhe atribuía, reconhece o crédito que cabe ao MFA — «O 25 de Abril foi acção de militares, isso não pode ser esquecido nem diminuído: além de injusto, seria grave.» Aponta, todavia, o papel das Forças Armadas enquanto suporte do regime fascista e na guerra colonial.
Testemunham a devastação da guerra. Embora Hazek opte pelo humor e a sátira, não omite o horror: «Um projéctil, que não tinha explodido, atingira um velho pinheiro junto da antiga estação de caminho de ferro, da qual apenas restava um monte de ruínas. Por toda a parte havia fragmentos de projécteis espalhados, e era evidente que cadáveres de soldados tinham sido enterrados na proximidade, porque existia um horrível fedor a putrefacção. E em todos os lados estavam pedaços de excremento humano emanando de todas as nações da Áustria, Alemanha e Rússia.»
A demolidora ironia de Hazek denuncia, em torno da sua casta militar, o estertor da classe dominante no decadente império austro-húngaro. Antes anarquista e anti-bolchevique, adere em 1918 ao socialismo, participa na guerra civil russa nas fileiras do Exército Vermelho. É membro do soviete de Irkutsk. Os militares ao lado dos quais combate são outros, têm outra origem, batem-se por uma causa em que se reconhece.
Um e outro partilham a busca da melhor humanidade entre aquilo que de pior o seu tempo lhes proporcionou. É também assim que os devemos lembrar, cem anos depois.