Um Ano Novo melhor: sim, é possível!

João Ferreira (Membro da Comissão Política)

Da força do Partido dependerá a evolução da situação

Fazer das injustiças força para lutar – eis a mais mais sólida garantia de que não cairão em saco roto os votos de um Ano Novo melhor.

No ano que terminou, a alteração na correlação de forças no plano político fez engrossar o caudal da política de direita e cavou mais fundas injustiças na sociedade portuguesa.

De um lado, os que vivem do seu trabalho, tendo de se amanhar, em termos reais, com cada vez menos salário para tão elevado custo de vida. Do mesmo lado, aqueles que, tendo trabalhado uma vida inteira, viram o Governo faltar ao cumprimento da lei – com estes, ao que parece, os «contratos» não são para cumprir – o que fez encolher as pensões e as reformas face ao crescimento dos preços. Ainda do mesmo lado, centenas de milhar de micro e pequenos empresários, também eles socavados pelo aumento dos preços, pela erosão do poder de compra da generalidade da população e pelo comportamento predatório dos grupos monopolistas.

Do outro lado, os maiores grupos económicos nacionais, da banca à energia, passando pela grande distribuição ou pelos que vivem de chorudas rendas, à sombra das «parcerias público-privado» – com estes, ao que parece, os contratos são mesmo para cumprir. Todos embolsaram mais lucros em 2022 do que em anos anteriores. Beneficiam, além disso, de costumeiras benesses na hora de pagar impostos. Beneficiam, também, das disposições introduzidas na legislação laboral que enfraquecem a contratação colectiva, contribuindo para a compressão dos salários e o aumento da exploração.

Perante o confronto inevitável entre um lado e o outro da barricada, a acção do Governo PS agravou injustiças na repartição do rendimento nacional, em desfavor do trabalho, a favor do capital. Nas últimas três décadas e meia, nunca o peso das remunerações do trabalho no conjunto da riqueza criada no país caiu tanto, num só ano, como em 2022. Não foi por acaso que o poder económico se regozijou com a actual maioria absoluta.

As desigualdades e as injustiças sociais, consequência da política de direita, constituem-se como um obstáculo ao desenvolvimento do País, causa de atrasos e bloqueios que estão bem patentes na vida nacional.

Fazer das injustiças força de quem as sofre na pele, uma força feita luta, consequente e transformadora, assume uma dupla importância: pela recusa e combate às injustiças e pela afirmação, que essa luta comporta, de um caminho alternativo. Um caminho que articula medidas de curto prazo, algumas de emergência – como o aumento dos salários e das pensões; o controlo de preços de bens e serviços essenciais; o cabal financiamento dos serviços públicos; ou medidas para garantir o efectivo direito à habitação – com medidas de fundo, que consubstanciam um projecto de desenvolvimento soberano do País – entre outras, o controlo público de empresas e sectores estratégicos; a recuperação da soberania monetária; a dinamização da produção nacional; a defesa do ambiente.

É por tudo isto que a situação actual reclama um PCP mais forte, mais influente, mais organizado, mais interventivo. Por tudo isto, impõe-se, com redobrada energia, com audácia, levar à prática as orientações da Conferência Nacional, em toda a sua abrangência e tendo presente o seu amplo alcance. É necessário vencer rotinas, aperfeiçoar métodos de trabalho, examinar e corrigir insuficiências, combater atitudes de fechamento, tomar a iniciativa. É necessário «ligar ainda mais o Partido à vida, afirmá-lo como o instrumento fundamental de acção e luta, a partir da identificação das respostas necessárias em cada momento aos problemas que os trabalhadores e o povo enfrentam». Uma tarefa que «tem tanto de exigente como de estruturante».

Entramos em 2023 com uma certeza: «da força do Partido, da sua capacidade de resistir e avançar dependerá também a evolução da situação nacional.» Constatação que, mais do que a formulação de um desejo, prática própria da época, constitui uma afirmação de confiança nas forças e capacidades que temos para fazermos de 2023 um ano melhor.




Mais artigos de: Opinião

Mísero contentamento

Há quem se contente com pouco e proclame a felicidade que o inunde por dá cá aquela palha. Não em tom de rábula, como Herman e Breyner imortalizaram por via do senhor Feliz e do senhor Contente, mas na versão de propaganda europeísta que levou Lagarde a anunciar essa boa nova de ter a Croácia no que designa de «família...

Um ano depois da chantagem

Há um ano o País entrava na fase derradeira da campanha eleitoral para a Assembleia da República. As eleições tinham sido precipitadas no seguimento da rejeição da proposta de Orçamento do Estado para 2022, numa acção convergente entre o Governo do PS, ávido de se libertar dos condicionamentos que ainda restavam da...

Janeiro de 1923

Eugénio de Andrade nasceu em 19 de Janeiro de 1923. Um muito importante centenário a celebrar. Alguns dias antes, nesse mesmo mês, morria Jaroslav Hazek, o autor de O bom soldado Schweik. Acontece que, para além do génio literário, ambos tiveram em comum a aversão ao militarismo – em contextos históricos evidentemente...

Garantia

A Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução, a 30 de Dezembro, solicitando ao Tribunal Penal Internacional (TPI) um parecer consultivo sobre as «consequências legais decorrentes da violação contínua por Israel do direito do povo palestiniano à autodeterminação, da ocupação prolongada, colonização e anexação do...

Depois da URSS…

Uma sondagem revelou que 58% dos russos lamentam o fim da União Soviética. Os dados do centro russo de Opinião Pública, VSIOM, foram divulgados no dia 30 de Dezembro em que se assinalou o centenário da fundação da URSS. Apesar dos 31 anos decorridos da sua dissolução, e da ideologia dominante adversa ao socialismo, a...