Contas de subtrair

Gustavo Carneiro

Os mercados, e com eles o défice e a dívida, voltaram em força à agenda política e mediática. Passada a pandemia e com a guerra a deixar de ser novidade (e a perder fulgor como argumento), eis que os mercados voltaram a ficar «nervosos», «inquietos» e «preocupados» com eventuais exageros ou derrapagens nas contas públicas. No debate do Orçamento do Estado, que concluiu na semana passada a sua primeira fase, com a mais que esperada aprovação na generalidade, lá esteve uma vez mais a obsessão com as «contas certas».

Mas afinal que contas são estas?

O que sabemos é que algumas estão erradas. Como as que apontam para inverosímeis taxas de inflação de 4 e 2 por cento nos próximos anos, quando a deste andará pelos oito e na verdade nada faz prever alterações significativas nesta situação, pelo menos a curto prazo. Desta previsão, importará que se diga, depende o valor de actualização de salários, reformas, pensões e outras prestações sociais…

Incluirão estas contas os 9,2 mil milhões de euros que, sobretudo sob a forma de dividendos e lucros, saíram do País para o estrangeiro nos primeiros sete meses do ano (mais 2,2 mil milhões do que em igual período de 2021)? Mudará o resultado saber-se que isto representa bem mais de metade do orçamento do Ministério da Saúde, precisamente aquele que pretende gastar qualquer coisa como oito mil milhões em «aquisição de serviços» aos grupos privados? E que apenas concretizou, até final de Agosto, 135,5 milhões dos já de si escassos 864 milhões previstos em investimento?

Serão parcelas destas contas certas os três mil milhões anunciados pelo Governo «para a energia» e que acabarão a financiar directamente os lucros da EDP, da GALP, da Endesa ou da Iberdrola? Ou os 1274 milhões em Parcerias Público Privadas, que terão igualmente como destino os cofres destes ou de outros grupos económicos? Contarão para as somas os benefícios fiscais e a nova redução de IRC que o Governo se prepara para oferecer às grandes empresas?

Umas há, entre elas, que são de multiplicar, desde logo que se fazem nos conselhos de administração dos principais grupos económicos: no primeiro semestre do ano, as empresas do PSI-20 viram os lucros crescer 73% relativamente a igual período do ano passado, para 2300 milhões de euros, e em destaque está a GALP.

Mas há ainda as outras contas, as que a maioria tem de fazer para decidir se abastece o carro ou se aquece a casa, para escolher o que põe no cesto ou deixa na prateleira do supermercado. E já que falamos de contas, houve quem as tenha feito e concluído que nos últimos oito meses a pescada aumentou quase 80%, os brócolos perto de 50%, o leite meio-gordo 34% e o frango 31%.

Estas são contas de subtrair. Com resto zero. Ou até menos.



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