EUA: furacão e desigualdade

Filipe Diniz

«Há luta de classes, sim, mas é a minha classe – a classe rica – quem a faz, e estamos a ganhar». Quem disse isto (esquecendo-se de que nessa luta há dois lados) foi, como é sabido, Warren Buffett, na altura o segundo homem mais rico dos EUA.

Ocorre a propósito da passagem do furacão Ian pelo sudeste do país, e Buffett entra nela. Justificar-se-á analisar esse acontecimento segundo critérios de classe? Sempre que se vêm reportagens deste tipo de desastres nos EUA qualquer um se interroga se a «fúria da natureza» explica tudo e toca a todos por igual. Olhando com atenção evidenciam o contrário: a tragédia é potenciada pela extrema desigualdade no habitar, pela carência e precariedade da habitação dos pobres no país tido como mais rico do mundo.

No sul alojam-se sobretudo em áreas vulneráveis (aterros em zonas pantanosas, leitos de cheia) e entre as habitações mais atingidas estão em muitos casos trailers, caravanas supostamente rebocáveis mas em geral instaladas de forma permanente. São, para muitos, o recurso equivalente àquilo que em outras partes do mundo é o mais reduzido padrão do habitar. Qualquer furacão as leva pelos ares.

20 milhões de norte-americanos vivem nelas. Boa parte integra os 20,7 por cento da população cujo rendimento se situa abaixo do limiar da pobreza (2020). Mas nem por serem pobres deixam de ser explorados e fonte de riqueza para outros. Dois dos mais ricos bilionários prosperam à sua conta: Sam Zell controla 140 mil parques de caravanas, Warren Buffett é proprietário da maior fábrica de trailers e das duas maiores prestadoras de crédito hipotecário sobre elas.

Numa qualquer localidade da Flórida devastada pelo furacão Ian alguém hasteou a bandeira da Ucrânia entre as ruínas, «esperando que assim o Congresso envie ajuda». Humor negro que aponta outra coisa: o sistema e a sociedade em que vivem são ainda mais devastadores do que desastres naturais.






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