A náusea

Anabela Fino

«Eu já disse, mas vou repetir: / Não se represa um rio, / Não se engana a natureza, / Faça a represa o que quiser, / Pois o rio cedo ou tarde vai arranjar um jeito de rasgar a terra, / Abrir um caminho, / E voltar a correr em seu leito de origem.» Estes versos de Pessoa ocorreram-me nos últimos dias, qual tábua de salvação, face à náusea provocada por notícias (?) ao que parece consideradas pertinentes para fazerem manchetes e encherem tempo de antena em horário nobre.

Primeiro foi o anúncio da campanha «Sake Viva!», lançada pela Agência Nacional de Impostos do Japão, a pedir aos jovens entre os 20 e os 39 anos que apresentem propostas para ajudar a... aumentar o seu próprio consumo de álcool. Isso mesmo. A juventude está a beber menos, então venham de lá ideias para que beba mais. A economia agradece, diz o governo, preocupado com a contínua queda da receita tributária sobre o álcool: 1,7% do total em 2020, contra três por cento em 2011 e cinco por cento em 1980. Ironia das ironias, convida-se a vítima a fornecer a arma do crime.

Depois, para o caso a ordem dos factores é árbitrária, foi a inenarrável cobertura da disputa do cadáver de José Eduardo dos Santos, da trasladação para Luanda do corpo do antigo presidente em plena campanha eleitoral angolana, e do alegado aproveitamento político das cerimónias fúnebres.

Por último, mas não menos importante, a saga do coração de D. Pedro IV, que Rui Moreira foi levar a Brasília para participar (?!!) nas comemorações do bicentenário da independência do Brasil. O embaixador brasileiro em Lisboa, Raimundo Carreiro Silva, prometeu que o órgão conservado em formol e de ordinário literalmente guardado num cofre fechado a cinco chaves seria recebido «como se o próprio imperador estivesse a regressar ao país». A relíquia, diz o presidente da Câmara do Porto, é um «bem cultural insubstituível» que deve ser regularmente exposto para que as novas gerações percebam o seu «significado». Qual seja não se sabe, o que se sabe, isso sim, é que o aparato em torno do coração que há 188 anos deixou de bater vai animar, a 7 de Setembro, a campanha para a reeleição de Bolsonaro. «No dia 7, estarei pela manhã em Brasília, com o povo na rua, com a tropa desfilando», prometeu o actual presidente, que quer transformar as comemorações da independência em manifestações de apoio ao seu governo.

A responsabilidade disto não pode ser assacada à dita silly season, expressão inglesa para a pretensa «estação parva», o período de Verão em que alegadamente não se passa nada porque políticos e comentadores encartados vão a banhos e ficam com o horizonte do umbigo obstruído com areia, porque isso foi chão que deu uvas.

Dou a mão a Pessoa: «A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos...»




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