O raio que os parta!

João Frazão

Dói muito ver o Parque Natural da Serra da Estrela a arder. Dias a fio de destruição, imagens de uma intensa violência, milhares de hectares ardidos, dezenas de aldeias em pânico, pastos, campos agrícolas, olivais, vinhas, dizimados pela besta que parece que não há nada que detenha.

Dói ver coberta de negro, seguramente por anos, talvez por décadas, a mítica Serra que ansiamos ver branca de neve. Dói pensar que o Queijo da Serra, sustento de tantas famílias, pode estar em risco nos tempos mais próximos. Dói imaginar a nascente do Mondego, onde antes nasciam águas cristalinas, escorrer agora cinza e lamas.

À hora que escrevemos estas linhas, aquelas populações ainda não podem descansar. Centenas de bombeiros e dezenas de meios diversos continuam a combater o fogo que se passeia desde o dia 6 de Agosto por diversos concelhos.

É perante este cenário negro, e para lá do legítimo debate sobre o combate, que não podemos calar que este incêndio é o mais cabal desmentido das teses com que sucessivos governos procuram, há décadas, desculpar-se por aquilo que, efectivamente, não fazem.

Num dos mais importantes Parques Naturais do País, o Governo não tem responsabilidades particulares? Não tem vigilantes no terreno? Não fez ou não obrigou a fazer a limpeza que era necessária? Não conhece e não trabalha com os proprietários dos terrenos?

Onde estão as 500 equipas de sapadores florestais previstas na lei? Onde estão os Guardas Florestais? Onde está um política para valorizar o preço da madeira? Onde estão os apoios prometidos aos Bombeiros Portugueses, que saudamos, como a todos os que arriscam as suas vidas no combate aos incêndios?

Como não querem concretizar as políticas públicas que são anunciadas a seguir a cada grande vaga de incêndios e que, depois de mais um relatório que já foi anunciado, seguramente, confirmarão, distribuem as culpas pelas terras abandonadas, pelos terrenos sem dono ou sem dono conhecido, pelas heranças indivisas, pela mão criminosa, pela negligência dos cidadãos e pela responsabilidade individual. Enfim, pelo raio que os parta!

Eles são os únicos que, pelos vistos, não têm nada a ver com isso!




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