Ainda os cereais
Agora estão na moda as preocupações com a produção de cereais em Portugal, com alertas para os níveis de dependência, avisos dos riscos de se repetir os erros de uma nova campanha do trigo, à semelhança da do fascismo dos anos 30 do século passado, culpabilização pela pobreza natural dos solos e pela incompetência da meteorologia, e com a tentativa de ilibar de responsabilidades a União Europeia e o processo de integração capitalista que, como se sabe, só trouxe ao País leite, mel e bem aventuranças.
Não passamos, obviamente, por cima do facto de o nosso Partido ter, também nesta matéria, um património incomparável de denúncia e de proposta, de que o debate do Orçamento do Estado para 2022 é exemplo, para fazer face à situação para a qual alertamos há muito e que não é apenas de dependência, mas é já de segurança nacional, uma vez que Portugal depende em 95% do exterior no trigo e em mais de 70% no caso milho e que a vida mostrou, nestes últimos anos, que tudo pode acontecer conjugando-se para haver um colapso no abastecimento desta que é a base da alimentação humana e animal.
Mas não podemos deixar de registar que todos os argumentos pretendem, em primeiro lugar, ilibar a política de direita, os seus executores e principalmente os seus beneficiários, das responsabilidades pela destruição da produção nacional de cereais que, não sendo possível cobrir todas as necessidades, poderia ser bastante maior do que é hoje.
Não falem de produtividade das culturas, pois os melhores terrenos foram ocupados pelos senhores do agronegócio (que se estão completamente marimbado para a necessidade de alimentar o nosso povo) por culturas permanentes.
Não venham com a conversa do solo e do clima, refiram antes o desligamento das ajudas à produção de cereais e os apoios milionários que são dados a outras culturas.
Não insistam na Campanha do Trigo de má memória e nos seus impactos ambientais, a não ser que queiram falar dos impactos da monocultura de olival e amendoal e que não queiram que se diga que hoje as condições para se produzir são completamente diferentes.
Assumam que, exactamente como destruíram a produção de comboios, a metalurgia pesada, a nossa frota mercante e de pesca, apenas para dar alguns exemplos, também destruíram a produção de cereal às ordens de Bruxelas. A história se encarregará de apontar os culpados.