Coitadinhas!
Nos últimos tempos, os novos liberais, que é o novo nome que se atribuiu aos velhíssimos reaccionários da nossa e de tantas outras praças, inundam-nos com gráficos e bonecos e outdoors, querendo fazer crer aos mais incautos que as empresas, coitadinhas, estão sobrecarregadas de impostos e não aguentam tal carga.
Principal alvo é o IRC, um bicho medonho de incontáveis cabeças que esmagaria os nossos empreendedores, impossibilitando um desenvolvimento que, sem ele, seria fulgurante e facultaria uma rápida passagem ao reino do leite e do mel que há muito nos prometem.
E, falando de taxas de IRC que seriam proibitivas, lançam números para o ar, acima de 30 por cento, para gerar a confusão.
Sucede que reputado matutino económico nos diz, em reportagem que assenta nos números da Autoridade Tributária, duas coisas muito interessantes.
A primeira é que a maioria das empresas, cerca de 60 por cento, pela sua dimensão e volume de negócios, nem liquida IRC, ou seja, não atinge o escalão para pagar imposto.
A segunda é que a taxa média efectiva de imposto pago pelas empresas que pagaram IRC referente a 2020 foi de pouco mais de 18 por cento. Note-se que as empresas com volume de negócios entre 5 e 12,5 milhões de euros conseguiram mesmo uma taxa efectiva de 16,5 por cento.
Daqui decorrem duas ideias que me parecem cristalinas.
A primeira é que os tais 60 por cento de empresas que nem sequer pagam impostos, do que precisam é de intervenção nos custos da energia, dos combustíveis, das matérias-primas, dos seguros, dos juros, das portagens, de que, diga-se em abono da verdade, uma boa parte das outras 40 por cento se alimentam. E já agora, precisam que os trabalhadores tenham melhores salários para alargarem o seu poder de compra e permitirem, aí sim, o crescimento dos seus negócios.
A segunda é que os propagandistas das virtudes do mercado e do menos Estado, o que procuram mesmo é ver se nos enganam a todos, para que os senhores do lucro e do dinheiro, o grande capital, de quem, está-se mesmo a ver, são os mais ciosos representantes, contribuam ainda menos e saquem ainda mais.