A maioria que uma minoria sempre desejou
O Governo apresentou a nova proposta de Orçamento de Estado para 2022. O documento em si pouco difere do que tinha sido apresentado em Outubro. A sua principal prioridade é a redução do défice. Já tinha sido assim quando há seis meses assumia o objectivo de o reduzir a 3,2 por cento e mais assim é quando agora fixa o objectivo de 1,9 por cento.
Entretanto, os problemas do País agravaram-se e não foi por causa das eleições que o PS tanto desejou para sacudir a intervenção do PCP e alcançar a maioria absoluta. O aumento do custo de vida, impulsionado pela guerra e pelas sanções e pelo aproveitamento que o capital está a fazer, é talvez o dado qualitativamente mais relevante e que se confronta com a intransigência do governo que recusa a recuperação do poder de compra perdido, seja pelos salários, seja pelas pensões, assumindo que a sua opção estrutural é a protecção dos lucros dos grupos económicos.
Fica agora mais claro o valor que esta maioria absoluta tem para o grande capital. Um poder político que se submete quase por inteiro aos seus interesses e que os defende na praça pública como se fossem os do País. Exemplo disso tem sido o bafiento argumento de que o aumento dos salários arrastaria uma «espiral inflacionista», para justificar que sejam os trabalhadores e as camadas mais desfavorecidas a pagar os impactos das sanções, da guerra e da especulação.
Curiosa ainda é a alteração da narrativa dos media sobre esta «nova» proposta de OE que – sendo praticamente a mesma – deixou de ser apresentado como «o Orçamento mais à esquerda de sempre», expressão que foi usada até ao limite na operação de chantagem sobre o Partido que se verificou no final de 2021 e que agora… desaparece.
Nos próximos tempos não vamos ter nem um Orçamento nem uma política que sirvam o País. Que respondam à emergência salarial, que travem a subida dos preços, que reforcem os serviços públicos (em particular o SNS), que garantam o direito à habitação, ao transporte, à cultura. E a única certeza que emerge desta realidade é a importância da luta por uma política alternativa que, estando mais difícil, não deixa de ser o caminho para onde os trabalhadores, os democratas e patriotas devem convergir.